É até difícil de acreditar quando penso a respeito, mas esse ano o Cachorro Verde vai completar 18 anos de existência. Quase duas décadas atrás a gente resolveu trocar a ração dos nossos cachorros e gatos da época por uma versão experimental de dieta BARF (crua com ossos) que aprendemos lendo o blog de uma criadora gringa de Bull Terrier.

Nos atrapalhamos um pouco no começo, é claro. As primeiras fotos que orgulhosamente tiramos das tigelas (de plástico, inclusive!) dos nossos cães contendo a nova dieta mostravam uma folhona de couve-manteiga crua, como se nossos pets fossem coelhos ou pôneis capazes de mastigar e processar hortaliças inteiras.
Quando a Corah, Golden Retriever que partiu durante a pandemia, era uma filhote sendo apresentada à Alimentação Natural, lhe servi um prato de lentilhas cozidas, que ela devorou mas lhe causou um mega piriri, por conta do alto teor de fibra desse alimento e total falta de introdução gradativa. 🤦♀️
Se lançar em algo novo é excitante, embora possa dar um frio na barriga, mas também é um prato cheio para erros porque falta expertise e experiência. E é importante que o início seja tranquilo, com o pet feliz com a dieta e sem sintomas digestivos. A decisão por seguir oferecendo Alimentação Natural (AN) preparada em casa depende muito da impressão inicial de que causa, afinal, é uma empreitada que exige estudo, tempo, investimento financeiro e organização.
Algumas pessoas desistem e voltam a oferecer ração quando o pet vomita ou tem diarréia durante a tentativa de troca de dieta. Geralmente os motivos para isso são um (ou mais) desses três: faltou introdução gradativa, ao longo de 7 a 10 dias, da ração para a AN; a suplementação foi iniciada de forma brusca – tudo isso já abordamos detalhadamente em postagens aqui nessa página. Ou, o terceiro motivo que abordarei hoje, a dieta inicial foi preparada com a melhor das intenções, mas com alimentos mais arriscados – como a lentilha que inventei de servir para a Corah bebê 🙈.
Confira o post abaixo e vamos ver juntas os alimentos que considero mais seguros (e também os que não recomendo) para se lançar na Alimentação Natural com seu 🐶 ou 🐱 com mais chance de dar certo!

Carnes
Cortes com teor moderado a baixo de gordura são a minha recomendação para dar início, como filé mignon suíno, lombo suíno sem gordura, peito de frango sem pele, patinho bovino, músculo, coxão mole e coxão duro. São mais leves e, em geral, melhor tolerados.
Vísceras secretoras
Vale sempre reforçar: vísceras secretoras (ou glandulares) — como fígado, rim, baço e cérebro — são alimentos “fortes”, com maior potencial de desestabilizar o intestino. Cuidado com a quantidade. Comece com cerca de 5% da dieta (ideal no início) e, no máximo, vá até 10%. Dica importante: para começar, prefira fígado bovino ou suíno ao de frango — costumam ser melhor tolerados.
Vegetais
Boas opções para o início: abobrinha, chuchu, aipo (talo de salsão cortadinho), vagem, cenoura e brócolis. Mais “arriscados”: berinjela, jiló, beterraba, abóbora, cogumelos e quiabo. Minha orientação é testar esses últimos com cautela: introduza um de cada vez, em pequena quantidade, e aumente aos poucos, sempre observando a tolerância do pet. Essas recomendações são mais relevantes para cães — na dieta dos gatos os vegetais entram em pequenina quantidade e assim dificilmente são um problema.

Grãos
Se a dieta contiver grãos, prefiro arroz integral, parboilizado ou branco mesmo ou aveia em flocos, a grãos bem mais complexos de digerir (e até de preparar) como quinoa, lentilha, cevada ou grão-de-bico. Sempre ofereça-os bem cozidos.
Tubérculos
Mandioquinha (batata-baroa), batata-doce e até batata inglesa (sem casca, para evitar a solanina) são boas escolhas para começar. A mandioca (aipim/macaxeira), sem casca e bem cozida — de preferência na pressão, até ficar homogênea — também costuma ir bem. Evite inhame e cará no início: podem soltar o intestino.
Ossos carnudos crus
Se a escolha for AN crua com ossos, gosto de começar com o clássico pescoço de frango sem pele — macio, com ossinhos arredondados e fácil de consumir.
Para gatos, asas de frango (com pele mesmo), cortadas em 3–4 partes, costumam funcionar bem.
Para cães grandes e gigantes, o dorso de frango, com menos pele e gordura, é uma boa opção inicial.

Suplementos e complementos
A AN caseira precisa ser suplementada com vitaminas e minerais. Se optar por um suplemento comercial (como Food Dog ou Nutroplus), a regra é clara: introdução gradual sempre
- Dias 1–3: 1/4 da dose diária
- A cada 3 dias: aumente mais 1/4
- Até atingir a dose completa
Outros complementos (psyllium, óleo de peixe, outros óleos etc) devem ser introduzidos um a cada 2 dias, para facilitar a identificação de possíveis intolerâncias.
Petiscos
Petiscos são alimentos e também podem causar reações digestivas, como vômito ou fezes alteradas. Durante a introdução da AN tome cuidado com opções que podem soltar o intestino, como mordedores naturais de cartilagem (orelhas, vergalhos, focinhos etc), fígado desidratado e excesso de frutas laxativas (como mamão).

Introdução gradativa sempre
Tão importante quanto escolher bons alimentos é observar essas regrinhas de ouro:
- Comece com uma dieta simples (ex: peito de frango + fígado bovino + batata-doce + chuchu + abobrinha) e mantenha essa base durante toda a transição
- Faça a troca ao longo de 7 a 10 dias
- Aumente 10% da nova dieta por dia e reduza 10% da anterior
- Deixe para entrar com a suplementação depois que a dieta estiver bem aceita
Leveduras ao resgate!
Tem um pet extremamente sensível a mudanças? Minha sugestão é lançar mão de um probiótico à base de Saccharomyces boulardii.
Gosto bastante de opções como Floratil ou Repoflor (farmácia humana):
- 100 mg → gatos e cães até 10 kg
- 200–220 mg → cães maiores
1 dose ao dia
Comece 3 dias antes da transição e mantenha até a dieta (e suplementação) estarem completamente introduzidas.

Mesmo assim teve reação?
Se, mesmo fazendo tudo isso, seu peludo apresentar sintomas durante a transição, pode ser interessante buscar o acompanhamento de uma veterinária nutróloga experiente.
As causas mais comuns incluem:
- hipersensibilidade a alimentos
- reação a algum suplemento
- falta de fibras solúveis
Para não errar
Uma forma muito prática de manter a AN do seu pet sempre balanceada e segura é seguir o nosso livro Receitas de Alimentação Natural para cães e gatos. Nele você encontra uma boa variedade de combinações de AN cozida, crua com e sem ossos, para cães e gatos adultos, filhotes e idosos. Todas as receitas informam a quantidade certinha de cada ingrediente, de cada suplemento e o quanto oferecer dela para o seu peludo por dia. Não tem como errar e comprando hoje a versão eletrônica você ainda aproveita 20% de desconto.
Sylvia Angélico
Médica Veterinária
pós-graduada em Nutrição Animal
CRMV-SP 29945
Comunicado Cachorro Verde
As informações divulgadas em nossas postagens possuem caráter exclusivamente educativo e não substituem as recomendações do médico-veterinário do seu cão ou gato. Por questões ético-profissionais, a Dra. Sylvia Angélico não pode responder certas dúvidas específicas sobre questões médicas do seu animal ou fazer recomendações para seu pet fora do âmbito de uma consulta personalizada. Protocolos de tratamento devem sempre ser elaborados e acompanhados pelo médico-veterinário de sua confiança.
Obrigada por acompanhar os canais do Cachorro Verde!