Até cerca de dez anos atrás, quando um pet chegava à consulta com coceira intensa e alterações de pele — vermelhidão, descamação, lesões, queda excessiva de pelos, otites recorrentes, patas inchadas de tanto lamber — a principal suspeita diagnóstica era alergia.

Essa alergia podia ter um ou mais gatilhos: picada de pulga (DAPP), fatores ambientais como pólen, ácaros e poeira (atopia) e/ou hipersensibilidade alimentar.

Diante dessa hipótese, seguíamos — e ainda seguimos — uma estratégia longa e trabalhosa de exclusão: controle de pulgas, redução de alérgenos ambientais e dietas especiais para tentar identificar o(s) fator(es) envolvido(s). E sim, isso ainda é feito. Eu mesma faço isso quase todos os dias, porque praticamente todos os dias atendo pacientes que se coçam demais.

Mas, de uma década para cá, passamos a considerar um fator adicional — muitas vezes determinante — sobre o qual sabíamos pouco: o microbioma intestinal.

É aí que surge a pergunta:

“Mas o que o intestino tem a ver com a pele do meu animal? O cocô dele é normal.”

A resposta é: tem tudo a ver. O intestino se comunica diretamente com diversos órgãos e sistemas. Já se fala amplamente nos eixos intestino-cérebro, intestino-fígado… e também no eixo intestino-pele.

Esse eixo é fácil de observar na prática. Repare como, após um episódio digestivo — diarreia, vômitos — muitos pets passam a se coçar mais, apresentam secreções oculares e otites.

Em parte dos animais alérgicos, não há queixa digestiva evidente. Mas há também uma parcela significativa de cães e gatos que, além da coceira, vomitam, têm fezes instáveis ou convivem com desconforto digestivo crônico: lambem tudo, engolem repetidamente, têm ruídos intestinais audíveis.

A conduta clássica — reduzir estímulos alergênicos, prevenir pulgas, minimizar contato com poeira e ácaros, testar dietas hipoalergênicas ou hidrolisadas — continua válida.

Mas hoje sabemos que, em muitos casos, tratar o intestino é tratar um mecanismo central do processo alérgico, o que pode reduzir crises, dependência de medicamentos caros e a necessidade vitalícia de adotar dietas restritivas. Confira o conteúdo abaixo para entender melhor o eixo intestino-pele.

Conhecendo os termos

Para navegarmos por essa discussão, é importante compreender alguns termos-chave: microbiota, microbioma, permeabilidade intestinal, translocação intestinal e disbiose.

Microbioma x microbiota

  • Microbiota é o conjunto de microrganismos que vivem em um local do corpo, como o intestino, a pele ou a boca.
  • Microbioma é o “pacote completo”: a microbiota e mais tudo o que ela produz e faz, incluindo seus genes, metabólitos (os produtos de suas reações) e funções.

Em resumo: microbiota é quem está lá; microbioma é o que eles fazem e como isso influencia o organismo.

Permeabilidade intestinal

É a capacidade controlada da mucosa intestinal de permitir a passagem de nutrientes, água e íons, mantendo toxinas e microrganismos fora da circulação.

Quando essa barreira se altera, ocorre o aumento da permeabilidade, conhecido como “intestino permeável” ou leaky gut.

Translocação intestinal

Acontece quando bactérias, fragmentos bacterianos, partículas alimentares parcialmente digeridas e/ou toxinas atravessam essa barreira comprometida e alcançam tecidos ou a corrente sanguínea, ativando inflamação e respostas imunológicas.

Relação entre microbioma e permeabilidade

O microbioma intestinal é um dos principais responsáveis pela integridade e seletividade da mucosa intestinal. Em equilíbrio, ele estimula a produção de muco protetor, fortalece as junções entre as células intestinais e modula o sistema imune local.

Quando ocorre disbiose, ou seja, o desequilíbrio da microbiota, essas funções se perdem e a mucosa se torna mais permeável e vulnerável.

Repercussões sistêmicas

Com a perda da seletividade, substâncias que não deveriam alcançar a circulação passam a translocar (invadir), ativando o sistema imunológico. Isso pode se manifestar como inflamação sistêmica, com sinais como coceira, vermelhidão, impactação de glândulas adanais, lambedura de patas, aumento de secreção em olhos ou ouvidos, além de quadros articulares, urinários, respiratórios, alterações comportamentais e até neurológicos.

Causas de disbiose

Diversos fatores podem desequilibrar a microbiota intestinal. O uso de antibióticos é uma das principais causas, já que antimicrobianos não diferenciam bactérias “boas” das “ruins”. O uso de antiácidos, como o omeprazol, também contribui ao alterar o pH gástrico. Somam-se a isso o estresse crônico, dietas pobres em fibras e a ingestão excessiva de resíduos químicos, como herbicidas.

Enquanto isso, no intestino…

O funcionamento digestivo pode estar alterado ou não. Esse é um ponto crucial: muitos pets com disbiose e aumento da permeabilidade intestinal apresentam fezes aparentemente normais e nenhum desconforto digestivo evidente. Ainda assim, pode haver desequilíbrio da microbiota e aumento da permeabilidade, desencadeando ou agravando quadros alérgicos de pele.

Tem como diagnosticar isso?

Na medicina veterinária, ainda não dispomos de exames diretos para confirmar aumento de permeabilidade ou translocação intestinal. Essa hipótese é construída pela avaliação clínica, histórico do paciente, correlação temporal com eventos como uso de antibióticos e resposta ao tratamento. Exames de fezes que avaliam disbiose, como o índice de disbiose, podem auxiliar – e já os temos no Brasil.

E como remediar?

Em um pet com alergia de pele, continua sendo fundamental controlar ectoparasitas, reduzir alérgenos ambientais e, pelo menos inicialmente, por cerca de dois meses, adotar uma dieta menos reativa, com redução de alérgenos. Porém, quando o intestino está envolvido, atuar somente nesses pontos é insuficiente.

“Fechar” o intestino

Do inglês seal the gut, trata-se de restaurar a integridade e a seletividade da mucosa intestinal como barreira física. Não adianta trocar a fonte proteica da dieta se a mucosa segue permitindo a translocação dessas proteínas para a circulação. O processo precisa ser corrigido.

Protocolos individualizados

Cada profissional utiliza ferramentas diferentes, sempre considerando o paciente como um todo. Estratégias podem incluir fibras prebióticas, nutracêuticos como lactoferrina, extrato de romã, membrana da casca do ovo, silício orgânico, L-glutamina, MSM, posbióticos, além de terapias restauradoras do microbioma intestinal, como o transplante de microbiota fecal, já disponível na medicina veterinária brasileira.

Era alergia ou era intestino permeável?

Esse conceito fica claro quando um paciente que parecia reagir a vários alimentos, após controle da inflamação intestinal, volta a consumi-los sem apresentar sinais clínicos. Muitas vezes, não era alergia verdadeira, mas um intestino inflamado permitindo a passagem de substâncias reativas que causavam o caos na pele dele.

Para concluir

Ao considerar o papel do microbioma intestinal em quadros alérgicos — e, na verdade, em praticamente qualquer condição clínica — ampliamos as chances de um controle mais profundo, duradouro e menos dependente de fármacos e de dietas restritivas vitalícias. Isso passa, inevitavelmente, pelo uso racional de medicamentos que impactam a microbiota, como antibióticos e antiácidos, bem como pela proteção intencional do microbioma por meio do uso estratégico de probióticos quando esses tratamentos são inevitáveis.

Sylvia Angélico
Médica Veterinária
pós-graduada em Nutrição Animal
CRMV-SP 29945

Comunicado Cachorro Verde

As informações divulgadas em nossas postagens possuem caráter exclusivamente educativo e não substituem as recomendações do médico-veterinário do seu cão ou gato. Por questões ético-profissionais, a Dra. Sylvia Angélico não pode responder certas dúvidas específicas sobre questões médicas do seu animal ou fazer recomendações para seu pet fora do âmbito de uma consulta personalizada. Protocolos de tratamento devem sempre ser elaborados e acompanhados pelo médico-veterinário de sua confiança.

Obrigada por acompanhar os canais do Cachorro Verde!