Cães de porte pequeno entram na fase sênior — ou “maduros”, “coroas” — entre 9 e 10 anos. Nos de porte médio, isso acontece por volta dos 8; nos grandes, aos 7; e nas raças gigantes, bem mais cedo, entre 5 e 6 anos. Já os gatos, sortudos, só alcançam a fase sênior por volta dos 11 anos.

Essa postagem é para te ajudar a pensar em mudanças na rotina do seu cão ou gato adulto e sênior, para que ele envelheça com mais qualidade de vida, menos dor e menos restrições. Tive o privilégio — junto com todas as dificuldades e dores — de acompanhar até o fim a vida de alguns peludos que estavam sob os meus cuidados.

Também orientei incontáveis pacientes que conheci filhotes ou jovens adultos que chegaram à velhice e/ou já partiram. Entre meus próprios animais, as doenças que mais os impactaram (e a mim também) foram câncer, insuficiência renal, osteoartrose e síndrome da disfunção cognitiva — algo parecido com o Alzheimer nos humanos.

Nos pacientes idosos, vejo com frequência também disfunções endócrinas (hipercortisolismo e diabetes mellitus), quadros neurológicos e cardiopatias, além de lidar muito com a sarcopenia (perda de massa magra) e a inapetência crônica. A graduação não me preparou para amparar pets idosos, acolher tutores em conversas delicadas, aceitar algumas alterações inevitáveis em exames, nem para investir cedo na saúde de cães e gatos adultos pensando em uma velhice mais tranquila.

Esses aprendizados vieram com o tempo, tanto na clínica quanto em casa. Hoje quero compartilhar o que eu gostaria de ter feito por alguns dos meus próprios pets para prevenir ou amenizar quadros debilitantes — e também o que eu não deveria ter feito, situações que gostaria de tê-los poupado de atravessar. São cuidados que passei a adotar com meus pacientes, com a Zuri e com meus gatos.

Porque nunca é cedo demais para promover saúde pensando no futuro. Claro, não conseguimos controlar todos os fatores que influenciam o surgimento de doenças, mas algumas práticas diárias conscientes podem fazer toda a diferença. Quer ver?

Ômega-3

Não é à toa que veterinários recomendam ômega-3 para tantas situações: cardiopatias, artrite, catarata, câncer e alergias. Os ácidos graxos EPA e DHA, presentes no óleo de peixe, atuam na raiz de quase todas as doenças crônicas: a inflamação. Sugestão: ofereça 50 mg de EPA + DHA (somados) por kg de peso do pet, diariamente. Confira sempre no rótulo a quantidade por cápsula. Para pets com convulsões ou disfunção cognitiva, vale considerar um suplemento com mais DHA que EPA.

Atividade física

Os cães mais longevos do mundo tinham algo em comum: atividade física diária. Como já comentei em outra postagem, movimentar-se fortalece músculos e tendões, lubrifica articulações, desperta apetite e sede, previne constipação e ainda estimula intensamente a saúde cognitiva — pontos críticos para pets sênior.

  • Cães: passeios regulares, adaptados à idade.
  • Gatos: estimule brincadeiras por pelo menos 15 minutos por dia.

Proteção articular

Muitos dos meus pacientes sênior recebem diariamente suplementos com ativos como UC-II (colágeno tipo II), MSM, boswellia serrata, glucosamina, entre outros. A escolha depende da condição de cada um, mas o objetivo é sempre o mesmo: lubrificar articulações, reduzir inflamação e aliviar dor.

Cuidados práticos também ajudam:

  • caixas de areia de fácil acesso para gatos;
  • unhas dos cães sempre aparadas;
  • desencorajar pulos de locais altos;
  • adaptar o piso da casa para evitar escorregões.

Cogumelos medicinais

Os cogumelos são verdadeiros aliados: ricos em fibras prebióticas que nutrem o intestino e em compostos com efeitos anticâncer, protetores cognitivos, renais, hepáticos e anti-inflamatórios. Todos os cogumelos que nós consumimos podem ser oferecidos aos pets, desde que cozidos. Minha sugestão: incluir de 2,5 a 5% da dieta, 3x por semana. Para efeitos mais específicos e profundos, a veterinária pode indicar extratos de cogumelos medicinais em forma de suplemento.

Cavidade oral saudável O grande inconveniente da doença periodontal vai muito além do bafo horrível. Bactérias perigosas, gram-negativas, invadem a corrente sanguínea e afetam estruturas como rins e coração, criando um estado de inflamação sistêmica. Escove diariamente os dentes do seu pet com pasta adequada e regularmente ofereça ossos seguros ou brinquedos para ele roer. Se seu pet não permite esse cuidado, consulte a veterinária odontóloga ou experiente em profilaxia dentária para manter a boquinha em ordem.

Acompanhamento

A saúde de um pet idoso pode mudar rapidamente — e a detecção precoce faz toda a diferença no prognóstico.

Por isso, quando possível, recomendo exames a cada 6 meses, como:

  • hemograma completo,
  • função renal (uréia, creatinina, fósforo, urinálise, SDMA),
  • ultrassonografia abdominal.

A veterinária de confiança do seu pet poderá orientar sobre outros parâmetros a monitorar.
Ah! Todo nódulo em cães e gatos nessa fase merece atenção: palpe seu peludo de cima a baixo com regularidade.

Alimentação Natural

Trocar a ração por uma dieta de Alimentação Natural (AN) equilibrada é uma excelente escolha. Os alimentos frescos oferecem mais umidade, antioxidantes, aminoácidos e ácidos graxos íntegros, favorecendo o organismo sênior. A adição de fibras (como psyllium, chia ou linhaça dourada em cerca de 1% do total da dieta) ajuda a prevenir constipação e bolas de pelo nos gatos. Na prática, tenho adotado em pets geriátricos uma modulação leve — sem restringir — do teor de proteína, e mantenho fósforo em níveis moderados. Assim, acostumamos o paladar a uma dieta menos carnívora enquanto o apetite ainda está presente.

Peso

Ofereça uma dieta equilibrada, na quantidade adequada para manter seu pet em boa forma, e reduza ao máximo os petiscos — mesmo os saudáveis. A prática regular de atividade física também é fundamental. Manter cães e gatos adultos ou sêniores no peso ideal traz benefícios muito significativos para a saúde cardiovascular, osteoarticular, metabólica, imunológica e, no caso dos felinos, até para a saúde urinária. Para pets acima do peso que sofrem com dor articular, por exemplo, poucas medidas são tão eficazes quanto a perda de peso.

Hidratação adequada

Manter o pet bem hidratado é simples e fundamental para a saúde renal e urinária — especialmente considerando-se que cães e gatos mais velhos são propensos à desidratação. A necessidade média é de 50 ml de água por quilo ao dia, lembrando que a Alimentação Natural (AN) já fornece cerca de 70% desse volume. Minha cachorrinha Zuri, de 6 kg, precisa de 300 ml de água por dia: 210 ml vêm da AN, e os 90 ml restantes ofereço adicionando 2 colheres de sopa de água em cada refeição ou 100 ml de caldo de ossos entre elas.

Tratamentos complementares

Nos “anos dourados” dos cães e gatos, as terapias complementares aliviam sintomas e oferecem suporte sem os prejuízos dos fármacos pesados. Decidi que todo pet sob meus cuidados inicia fisioterapia a partir dos 8 anos, para preservar a estrutura musculoesquelética. Um corpo resistente vale ouro lá na frente. Canabidiol e nutracêuticos auxiliam no controle da dor e protegem a saúde cognitiva, enquanto ozonioterapia e acupuntura são fortes aliadas nos quadros crônicos. Busque conhecer essas e outras práticas — temos no Brasil bons profissionais atuando nessas áreas.

Meu posicionamento pessoal Em pets geriátricos, procedimentos sob anestesia geral devem ser avaliados com cautela. O risco não está apenas na anestesia em si, mas no conjunto:

  • reparação tecidual mais lenta,
  • funções vitais sob estresse,
  • posicionamento que pode impactar a coluna,
  • metabolização dos fármacos.

Infelizmente, já vi complicações significativas em cirurgias de animais idosos — inclusive em dois dos meus próprios — mesmo quando o procedimento foi considerado “um sucesso”. Nessa fase da vida, cada intervenção precisa ser muito bem ponderada em relação ao custo e benefício real para o gato ou cachorro.

Viu nosso livro?

Acabamos de lançar o livro Receitas de Alimentação Natural (AN) para cães e gatos. Nele, há dietas para para pets saudáveis de todas as idades, incluindo adultos e sêniores, cruas e cozidas. As dietas informam a quantidade a servir de acordo com o peso e idade do animal, bem como suplementar direitinho e como preparar. Tudo o que você precisa para aderir com segurança e praticidade à AN. Veja mais informações nos destaques acima!

Sylvia Angélico
Médica Veterinária
pós-graduada em Nutrição Animal
CRMV-SP 29945

Comunicado Cachorro Verde

As informações divulgadas em nossas postagens possuem caráter exclusivamente educativo e não substituem as recomendações do médico-veterinário do seu cão ou gato. Por questões ético-profissionais, a Dra. Sylvia Angélico não pode responder certas dúvidas específicas sobre questões médicas do seu animal ou fazer recomendações para seu pet fora do âmbito de uma consulta personalizada. Protocolos de tratamento devem sempre ser elaborados e acompanhados pelo médico-veterinário de sua confiança.

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