Durante a graduação, quase quinze anos atrás, eu não aprendi a lidar com os quadros digestivos crônicos que hoje acompanho diariamente na nutrição clínica. Aprendi a tratar episódios agudos: gastrenterite, verminose, torção gástrica, corpo estranho e infecções intestinais. Naquela época, parecia que a capacidade digestiva dos cães era mais rústica.

Não sei exatamente o que prontificou isso, mas o que logo passei a ver foi um aumento de pacientes com alterações recorrentes nas fezes, vômito e apetite seletivo — além de uma série de sintomas sutis que demorei a reconhecer como sinais digestivos.
Falo do cão que engole em seco, e/ou que parece querer tirar um gosto ruim da boca. Do que lambe o ar, o focinho, o chão, a cama ou os tutores sem parar. Do adulto que começa a ingerir tudo o que encontra — cabelo, tecidos, papel, plástico, terra. Do que baba uma saliva aquosa, adota a posição de prece, arrota várias vezes ao dia, tem hálito azedo sem gengivite ou tártaro, come mato compulsivamente para provocar vômito ou fazer cocô, ou ainda engasga e tosse com frequência.
Em 2012, pesquisadores avaliaram minuciosamente 19 cães que lambiam excessivamente superfícies. Setenta e quatro por cento apresentavam alterações gastrintestinais como pancreatite, giardíase, corpo estranho, retardo do esvaziamento gástrico, disbiose ou retardo do esvaziamento gástrico. Com tratamento, a maioria reduziu ou eliminou o comportamento (Bécuwe-Bonnet et al., 2012).
Quadros digestivos crônicos em cães e gatos podem ser desafiadores de diagnosticar e manejar. É fundamental contar com veterinários experientes, exames específicos (além do check-up básico) e observar a resposta à dieta e ao tratamento. Os sintomas têm muitas possíveis causas — gases, por exemplo, podem vir de hipocloridria (baixa secreção de ácido clorídrico no estômago), disbiose, gastroparesia (estômago lento), verminose ou intolerância alimentar. Muitas vezes, chegamos ao diagnóstico por eliminação, o que exige adesão e muita paciência da tutora e também conhecimentos atualizados e boa comunicação da veterinária.

Lambe-lambe
Lamber o focinho repetidamente é um clássico sinal de náusea. Já lamber superfícies — caminha, chão, paredes ou até braços e pernas dos humanos — costuma indicar desconforto digestivo, azia por refluxo gastroesofágico, dor ou cólica. Alguns pets com esses quadros também passam a lamber demais as patas ou a região abdominal.
Vômitos
Um vômito ocasional, que se resolve sozinho, não costuma preocupar. Mas episódios frequentes, seja de bile (espuma amarelada ou branca), de alimento parcialmente digerido, ou regurgitação — quando o alimento retorna intacto logo após ser engolido — precisam ser investigados. Isso vale também para os gatos. Gato que “vive vomitando” não é normal.
Cocô que oscila de consistência
Pets que ora fazem um cocô bonito, ora eliminam fezes com muco, amolecidas, diarréicas ou ficam constipados, precisam ter a saúde digestiva e a dieta avaliadas. As causas variam de falta de fibras, verminose, indiscrição alimentar (pet que ganha tudo o que o tutor come), intolerância alimentar e estresse até disbiose ou doença inflamatória intestinal crônica.

Posturas estranhas
A clássica posição de prece — quando o cão estende as patas da frente e levanta o quadril — é um sinal de dor ou desconforto digestivo. Também é comum que o pet fique inquieto ao deitar, trocando de posição e buscando superfícies mais frescas para encostar a barriga. Em gatos esses sinais são mais sutis: preste atenção em postura de esfinge, cabeça baixa e olhos semicerrados.
Gases
Soltar um pum ou outro é normal, principalmente após alimentos como repolho, ovo, grão-de-bico, brócolis ou couve-flor. O que merece atenção são episódios de distensão abdominal, arrotos frequentes e borborigmos — aqueles sons altos que lembram um miado fino ou água correndo por uma tubulação. Esses sinais podem indicar digestão lenta, disbiose, hipocloridria ou intolerância alimentar.
Comer tudo o que vê pela frente
A alotriofagia — comer cabelo, tecido, papel, plástico, terra, pedras, reboco etc — pode ter origem comportamental, como estresse, mas merece investigação. É importante descartar causas como desnutrição, verminose, dieta desequilibrada ou sem suplementação, disbiose, insuficiência pancreática exócrina e qualquer condição que prejudique a digestão e a absorção de nutrientes.

Ficar “estalando” os lábios
Assim como nós quando sentimos um gosto ruim, cães podem ficar estalando os lábios. Também podem ficar engolindo em seco e/ou produzindo uma saliva clarinha em excesso. Esses sinais podem indicar náusea e também aparecem em casos de refluxo gastroesofágico.
Hálito azedo
Quando o pet tem um cheiro ácido ou azedo na boca, sem gengivite ou tártaro, o odor pode vir do estômago ou do intestino delgado. Ele surge quando há fermentação excessiva do alimento — seja por hipocloridria, por disbiose do intestino delgado (SIBO) ou por retardo do esvaziamento gástrico, em que a digestão fica mais lenta.
Engasgo/tosse
A tosse pode ter origem respiratória, cardíaca ou digestiva. No refluxo, ela costuma parecer um engasgo audível que muitas vezes termina com o pet abaixando a cabeça até o chão, tossindo e fazendo ânsia de vômito.

Apetite irregular ou fraco
O cachorro ou gato que come mal pode ter uma infinidade de motivos para isso: alguma dor, febre, estresse, resposta ao calor excessivo, não gostar daquela dieta, ser de raça com baixo drive alimentar (Husky, Basenji etc). Mas cabe avaliar quadros que reduzem o apetite, como gastroparesia (digestão lenta), gastrite ou duodenite, que geram sintomas como náusea e cólica.
Quem procurar?
Se seu cão ou gato apresenta de forma recorrente sinais óbvios (diarreia, vômito) ou mais discretos, como os descritos aqui, procure uma veterinária bem recomendada em gastroenterologia para diagnóstico e controle adequados. E, se o pet faz Alimentação Natural, é fundamental contar também com uma nutróloga experiente nesses quadros. Muitas vezes basta ajustar a dieta e o manejo alimentar para manter tudo sob controle, mas parte dos casos exige acompanhamento de um bom gastroenterologista.
Sylvia Angélico
Médica Veterinária
pós-graduada em Nutrição Animal
CRMV-SP 29945
Comunicado Cachorro Verde
As informações divulgadas em nossas postagens possuem caráter exclusivamente educativo e não substituem as recomendações do médico-veterinário do seu cão ou gato. Por questões ético-profissionais, a Dra. Sylvia Angélico não pode responder certas dúvidas específicas sobre questões médicas do seu animal ou fazer recomendações para seu pet fora do âmbito de uma consulta personalizada. Protocolos de tratamento devem sempre ser elaborados e acompanhados pelo médico-veterinário de sua confiança.
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