No ano que vem vou completar 18 anos de experiência com Alimentação Natural (AN) para cães e gatos, e 15 anos de atuação profissional. Nesse longo período acompanhei diversos pontos de discórdia que dividem a comunidade de adeptos a AN para pets e posso afirmar que o mais permanente é a crítica à inclusão de fontes de carboidrato na dieta.

Essa crítica, ativa e dura, por vezes duríssima em muitos perfis, tanto de profissionais, como de entusiastas, se baseia em um fato verdadeiro: cães e gatos, animais carnívoros, não requerem carboidrato em sua dieta. No ambiente natural, felinos e lobos consomem baixíssimo teor de carbos e seus descendentes, nossos pets, permanecem perfeitamente capazes de transformar proteína e gordura em energia.

Mas, tirada da frente essa verdade, outras informações que balizam a contrariedade aos carbos são mitos, como a de que nossos peludos não digerem amido, não o aproveitam. Se assim fosse, não seriam capazes de sobreviver comendo ração, alimento em geral rico em carboidrato, não ganhariam peso por receberem carboidratro em excesso e teriam diarréia ao comerem uma banana ou uma borda de pizza.

Desde o advento da agricultura, há cerca de 12 mil anos, humanos compartilham sua dieta, que passou a incluir fontes de carboidrato, como cereais e tubérculos, com os cães. Em função disso eles até desenvolveram uma maior habilidade, em comparação aos lobos, de digerir amido.

Com tudo isso, quero dizer que a AN precisa incluir fontes de carboidrato? Não. Que uma dieta com um teor no máximo moderado de carboidratos cozidos é melhor que uma dieta sem eles? Depende dos seus objetivos. Há alguns anos entrei em um momento na minha trajetória profissional em que abraço o que funciona para o paciente e cabe na rotina de seu responsável. Menos apego a dogmas e filosofias autorais. Mais pragmatismo.

Tendo tido o privilégio de acompanhar mais de 10 mil cães nos meus 14 anos como veterinária atuante em nutrição clínica me sinto confiante para dizer que a minha experiência é que uma dieta para cães em que até 35% das calorias é oriunda de fontes de carboidrato cozida não atrapalha a saúde, tampouco a longevidade. E, ainda pela minha perspectiva, pode haver vantagens interessantes em não desconsiderar esse grupo de alimentos na hora de formular uma dieta.

Quanto é “muito”?

Para cães saudáveis em dietas caseiras de manutenção, considero totalmente aceitável que até 35% das calorias venham de carboidratos. Para gatos, até 25%. Isso vale para animais sem doenças; em dietas terapêuticas, às vezes o teor é maior — e, dependendo do contexto, tudo bem.

Quais opções usar?

As melhores fontes são cereais e tubérculos: arroz (integral, parboilizado ou mesmo branco), quinoa em grãos, aveia em flocos cozida em água, batata-doce, mandioquinha, mandioca sem casca, inhame e cará sem casca. Sempre cozidos — crus, não serão digeridos e podem causar diarréia.

Índice e carga glicêmica — o que significam?

  • Índice Glicêmico (IG) mede a velocidade com que um alimento aumenta a glicose no sangue.
  • Carga Glicêmica (CG) mostra o impacto total desse aumento, porque considera o IG e a quantidade de carboidratos na porção.

Pense assim: o IG fala da velocidade do efeito; a CG, do tamanho real dele.

IG/CG nas opções — com base em dados humanos

Ainda não temos esses valores mapeados para cães e gatos, então nos guiamos pelos dados humanos.

  • Têm baixa a moderada CG: aveia e quinoa.
  • CG intermediária: arroz integral, batata-doce e mandioquinha.
  • CG alta: arroz branco, mandioca e batata inglesa.

Conhece o arroz “dormido”?

Boa notícia: o arroz cozido e depois resfriado forma amido resistente, que reduz sua carga glicêmica — mesmo no arroz branco. Parte do amido deixa de virar glicose e passa pelo intestino como prebiótico leve, servindo de adubo para o microbioma. E mesmo ao reaquecer, boa parte desse amido resistente continua lá.

Dietas mais volumosas

Carne é mais calórica que carboidratos:

  • – 100 g de peito de frango cozido: ~160 kcal
  • – 100 g de patinho cozido: ~210 kcal
  • – 100 g de arroz integral: ~120 kcal
  • – 100 g de batata-doce: ~80 kcal

Por isso, dietas sem carbo tendem a ser menos volumosas, o que pode ser positivo para cães muito vorazes (e tutores ansiosos).

Qualidade das fezes

É bastante comum ver cães fazendo um cocô mais homogêneo e bem formado quando há uma porção de carboidratos na dieta. Em dietas sem carbos, mesmo com adição de fibras isoladas, alguns apresentam fezes mais irregulares. O benefício vem do amido resistente e da combinação natural de fibras solúveis e insolúveis dos carbos.

Mais acessível

Quando parte das calorias vem de carboidratos, a dieta exige menos carne — o item mais caro da AN. Isso reduz custos e permite que mais tutores consigam manter a alimentação natural. Por isso as ANs cruas e cozidas para cães do Cachorro Verde incluem cerca de 35% de carboidratos.

Teores moderados de proteína e gordura

Dietas sem carboidrato costumam ter proteína e/ou gordura bem elevadas. Para alguns cães isso é ótimo; para outros, pode elevar taxas como ALT, ureia, creatinina, SDMA, fósforo, proteinúria e favorecer certos cálculos urinários. Teores altos de gordura também podem aumentar risco de pancreatite e dislipidemia. Uma quantidade baixa a moderada de carboidratos permite manter níveis mais equilibrados de proteína e gordura, o que é interessante para muitos pacientes.

Preparando o corpo para a velhice

Grande parte dos cães e gatos idosos desenvolve a doença renal crônica e também passa a tolerar menos gordura. Incluir um pouco de carboidrato na dieta ainda na fase sênior ajuda na transição: o peludo já se acostuma ao sabor e à textura de alimentos como arroz, mandioquinha e batata-doce, antes de desenvolver o paladar seletivo tão frequente nos idosos.

E os gatos?

Por serem carnívoros estritos e menos adaptados a processar amido, geralmente prefiro dietas sem carboidratos para gatos. Mas não vejo problema em incluir pequenas quantidades de carboidratos de menor carga glicêmica — como abóbora e mandioquinha — quando isso facilita a rotina, os custos ou os objetivos da tutora. É totalmente possível ter uma AN saudável que inclua um pouco de carboidratos também para eles.

Exemplo de dieta com carbo para cão adulto

Total: 500 g

  • 200 g sobrecoxa de frango desossada, sem pele, cozida
  • 25 g fígado bovino cozido
  • 160 g batata-doce cozida
  • 50 g abobrinha cozida
  • 50 g vagem cozida
  • 15 g espinafre cozido
  • 1 g óleo de peixe

Resultado: 40% proteína33% gordura27% carboidrato e 1,3% de fibras. Níveis bem bacanas!

O peso do estilo de vida

Atividade física regular, peso saudável, sono de qualidade, petiscos saudáveis ofertados com moderação, estímulo mental, dieta baseada em alimentos minimamente processados, baixo estresse, vínculo forte com a tutora e uso racional de medicamentos que afetam o metabolismo. Esses pontos influenciam infinitamente mais a saúde e longevidade do que um punhado de arroz na dieta.

Aqui em casa

  • Frajola, meu gato com quadro intestino crônico, recebe mixed feeding (ração intestinal + AN crua sem ossos).
  • Lenù, minha gata, está na AN crua sem ossos e sem carbo.
  • Zuri, a cachorrinha, come AN crua com 15% de carbo cozido.

Sylvia Angélico
Médica Veterinária
pós-graduada em Nutrição Animal
CRMV-SP 29945

Comunicado Cachorro Verde

As informações divulgadas em nossas postagens possuem caráter exclusivamente educativo e não substituem as recomendações do médico-veterinário do seu cão ou gato. Por questões ético-profissionais, a Dra. Sylvia Angélico não pode responder certas dúvidas específicas sobre questões médicas do seu animal ou fazer recomendações para seu pet fora do âmbito de uma consulta personalizada. Protocolos de tratamento devem sempre ser elaborados e acompanhados pelo médico-veterinário de sua confiança.

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