Não vou mentir: sempre dou aquela espiadinha na ficha que os tutores preenchem antes da primeira consulta de nutrição clínica comigo. E, dependendo da raça do doguinho, alguns pensamentos inevitavelmente pipocam na minha cabeça:

“Husky? Hmm… aposto que não come bem.”
“Shih Tzu idosinho? Será que tem hiperadreno aí?”
“Spitz? Vish… preparar o plano de guerra para perda de peso.”

Brincadeiras e tentativas de previsões à parte, sei melhor do que ninguém que cada indivíduo é único. Mesmo que algumas raças tenham tendências mais marcadas, qualquer quadro de saúde pode aparecer em qualquer cachorro ou gato, seja puro, misturado ou vira-lata raiz.

E aqui vai um lembrete importante: uma boa parte da saúde do seu pet está, literalmente, nas suas mãos. Quadros sérios como artrose e diabetes mellitus muitas vezes podem ser evitados mantendo o cão ou gato no escore corporal saudável e com uma rotina consistente de exercícios físicos. Da mesma forma, quando cuidamos bem da saúde intestinal — e você sabe o quanto eu falo sobre isso aqui — reduzimos as chances de o pet desenvolver um problema cada vez mais comum e desafiador: a doença inflamatória intestinal crônica.

Agora, confira esta postagem e veja quais situações percebo com mais frequência na minha rotina de nutrição clínica com cães.

As raças que não aparecem por lá não ficaram de fora porque têm saúde inabalável, mas porque apresentam demandas mais variadas, sem um padrão tão característico. E os SRDs (nossos queridos vira-latas), inclusive, não entraram por um motivo simples: eles podem ter absolutamente qualquer doença.

Schnauzer Miniatura Nos “barbudos”, dou atenção especial à urinálise (EAS), à ultrassonografia abdominal e às dosagens de colesterol e triglicérides. A raça tem predisposição à formação de cristais urinários, dislipidemia — aumento das gorduras no sangue — e pancreatite. A depender do histórico e dos achados, pode ser indicada uma dieta com modulação de gordura (mas sem deixar de incluir ômega-3), restrição de ácido oxálico, suplementação de enzimas digestivas e recomendações para manter a urina bem diluída.

Spitz Alemão Pensa num paciente que, quando está acima do peso, dá trabalho para emagrecer: é o “lulu”. Costumam ter apetite de cachorro grande, mas metabolismo de anfíbio. Com frequência, precisam de dietas com densidade calórica muito menor do que eu prescreveria para outras raças — e, ainda assim, tendem a manter sobrepeso. O excesso de peso sobrecarrega as patelas e agrava o colapso de traqueia, tornando o escore corporal adequado uma real necessidade.

Golden Retriever Nos dourados, o desafio é conciliar o apetite insaciável com a necessidade de preservar um escore corporal saudável, evitando sobrecarga nas articulações — especialmente no quadril, que costuma ser um ponto delicado da raça. Tenho observado um aumento de quadros de alergias de pele, geralmente de causa mista, ambiental (atopia) e alimentar. Por isso, dietas naturais hipoalergênicas têm sido uma prescrição cada vez mais frequente para eles. O mesmo se aplica aos Beagles.

Husky Siberiano Esse peludo — no sentido literal — costuma ter um apetite peculiar. Muitos Huskies, e o mesmo vale para os Yakutian Laika, comem bem dia sim, dia não, provavelmente devido à seleção histórica como cães de trabalho em ambientes extremos. Investigo sempre para descartar outras causas de baixo drive alimentar, como dor, febre, doença periodontal, gastrite ou doença renal, mas para a maioria dos adultos saudáveis acabo recomendando uma única refeição diária de dieta natural. Costuma funcionar muito bem.

Buldogue Inglês Durante muitos anos atendi primordialmente buldogues com alergia de pele. De uns tempos pra cá tenho visto mais sobrepeso e obesidade, afetando coluna e articulações. Sempre investigo a saúde urinária com ultrassonografia abdominal e urinálise (EAS), pois uma parcela forma cálculos na bexiga, com frequência de composição mista (urato, estruvita, oxalato e carbonato de cálcio).

Samoieda “Colite” é o que me vem à mente quando vejo que vou atender um “ursão” desses. A maioria dos Samoiedas que atendi tem intestino sensível, com episódios frequentes de fezes amolecidas, presença de muco e, às vezes, sangue vivo. Para eles, costumo prescrever dietas cozidas de alta digestibilidade, hipoalergênicas e com o perfil correto de fibras, associadas à modulação intestinal individualizada.

Buldogue Francês Desde que comecei a atuar como nutróloga, os “morceguinhos” chegam até mim principalmente para que a dieta natural ajude no controle de algum quadro digestivo: disbiose, gastrite, enterite, colite, linfangiectasia e/ou pancreatite. O mesmo vale para os Boston Terrier. Também tomo cuidado redobrado em mantê-los esbeltos, para não sobrecarregar a coluna.

Yorkshire Terrier As demandas dos Yorkies são variadas. Já vieram muito ao consultório por cálculos urinários, por shunt portossistêmico (um desvio anormal do sangue do fígado), por seletividade alimentar e, na velhice, por doença renal crônica. Hoje, também recebo muitos desses pequeninos com quadros digestivos crônicos.

Chihuahua Para mim, este é o rei do desconforto digestivo: gases, ruídos abdominais, deglutição em seco, lambedura de superfícies e de patas, busca por gramínea e apetite oscilante. Via de regra, esses baixinhos vêm para investigarmos se sua gastroenterite crônica responde a uma dieta cozida, hipoalergênica e de alta digestibilidade — e, muitas vezes, são quadros desafiadores de controlar. Eu diria o mesmo do Biewer Terrier.

Pastor de Shetland Com os Shelties, o foco principal é manter o peso enxuto. Eles têm predisposição ao ganho de peso, o que abre caminho para problemas comuns na raça, como dislipidemia (aumento de gorduras no sangue), esteatose hepática, colestase e artrose. Por isso, uma dieta modulada em carboidratos e gorduras, controle calórico rigoroso, suplementação de ômega-3 e incentivo à atividade física diária costumam funcionar muito bem para as “mini lassies”. O mesmo raciocínio vale para os Welsh Corgis.

Jack Russell Terrier Esses baixinhos espevitados geralmente chegam para que a dieta auxilie no controle de quadros alérgicos de pele, quase sempre associados a um trato digestivo sensível — gastrite, enterite ou colite. Pouca gente sabe, mas coceira, otites de repetição e lesões na pele com frequência têm origem intestinal, em quadros de disbiose. Nesses casos, dietas hipoalergênicas e de alta digestibilidade podem trazer excelentes resultados. O mesmo se aplica a grande parte dos Westies e Malteses que acompanho.

Shih Tzu Nesses peludinhos as demandas são bastante variadas. Atendo Shih Tzus com alergias de pele (lesões, descamação, otites, vermelhidão, coceira), doença renal crônica, hiperadrenocorticismo, dislipidemia (colesterol e/ou triglicérides elevados), cálculos urinários e, cada vez mais, problemas digestivos crônicos. O mesmo perfil se repete com os Lhasa Apsos.

Pug Dietas para investigar alergia alimentar e para controlar a formação de cálculos urinários são as razões mais frequentes que trazem Pugs até mim. Porém, tenho visto mais cãezinhos dessa raça com diabetes mellitus e dislipidemia — condições que, em grande parte dos casos, poderiam ser evitadas com a manutenção de um peso corporal saudável.

Sylvia Angélico
Médica Veterinária
pós-graduada em Nutrição Animal
CRMV-SP 29945

Comunicado Cachorro Verde

As informações divulgadas em nossas postagens possuem caráter exclusivamente educativo e não substituem as recomendações do médico-veterinário do seu cão ou gato. Por questões ético-profissionais, a Dra. Sylvia Angélico não pode responder certas dúvidas específicas sobre questões médicas do seu animal ou fazer recomendações para seu pet fora do âmbito de uma consulta personalizada. Protocolos de tratamento devem sempre ser elaborados e acompanhados pelo médico-veterinário de sua confiança.

Obrigada por acompanhar os canais do Cachorro Verde!