Poucas coisas são mais aflitivas do que conviver com um cachorro ou gato que come mal, de forma irregular. Você prepara a refeição com todo o cuidado, coloca o prato no chão e ele nem chega a dar uma mordida. É evidente que está com fome: vai até a comida, cheira, parece interessado… mas desiste.

Na tentativa de fazê-lo comer, você oferece outra opção. Ele aceita prontamente e, aliviada, você pensa: “Ufa! Então era só servir essa comida mais vezes.” No dia seguinte, porém, ao repetir exatamente o mesmo alimento, ele o rejeita completamente.
Com o tempo, alguns padrões começam a aparecer. Petiscos? Esses ele aceita. Também parece comer melhor no fim da tarde ou à noite e, muitas vezes, depois do passeio.
Em alguns casos, fica cada vez mais difícil incluir vegetais na refeição: ele seleciona apenas as carnes. Suplementos, então, nem pensar. Basta perceber um pozinho, uma cápsula aberta ou algumas gotas de óleo misturadas à comida para perder completamente o interesse.
Para o desespero de muitos responsáveis, há cães que apresentam esse comportamento desde filhotes.
E então surgem as dúvidas: O que está acontecendo? Onde estou errando? Cachorros não deveriam ser naturalmente gulosos, quase insaciáveis?
Essa é uma das queixas que mais traz cães ao meu consultório. E a primeira coisa que costumo dizer é que a resposta nem sempre é simples. Existem inúmeras razões que podem tornar um cachorro seletivo para comer, desde questões comportamentais até condições clínicas. Muitas vezes, a solução exige investigação, tentativas, ajustes na rotina e, com frequência, exames.
Mas uma coisa é importante esclarecer: não é normal que um cachorro ou gato coma mal de forma crônica, e a solução definitivamente não é insistir na mesma comida até que ele “ceda” pela fome.
Neste artigo, reuni as principais situações que observo afetando a relação de cães e gatos com suas refeições. Algumas são relativamente simples de resolver; outras exigem um pouco mais de investigação e paciência. Confira abaixo.

Raças com menor drive alimentar
Noto que algumas raças, como Basenji, Husky Siberiano e Yakutian Laika, podem apresentar uma redução natural do apetite ao atingirem a idade adulta. Nesses casos, se o cachorro está saudável e mantendo o peso, costumo orientar a responsável a oferecer duas — e, muitas vezes, apenas uma — refeição por dia, no horário em que ele demonstra maior interesse em comer. E tudo segue bem.
Cio e gravidez psicológica
Mais de uma vez fui chamada para atender cães machos que passaram a comer muito mal ao perceberem que havia uma cadela vizinha ou da rua no cio. O apetite costuma voltar quando o odor desaparece, o que pode levar entre 10 e 15 dias.
As próprias cadelas também podem ficar mais seletivas durante o cio ou na pseudociese (gravidez psicológica).
Cansou da ração?
Alguns cães nunca se empolgam com ração, desde filhotes, mas demonstram enorme interesse por alimentos naturais. Nesses casos, o próprio cachorro parece deixar bem claro o que prefere. 😉

Alimentação Natural monótona
Isso acontece menos do que se imagina, mas acontece. Cães e gatos podem perder o interesse por uma Alimentação Natural — caseira ou comercial — cuja composição nunca muda. Sempre que possível, varie os ingredientes da dieta. Intercalar duas ou três formulações diferentes ao longo do mês costuma bastar para manter o peludo interessado.
Sobrepeso
Esse é um dos fatores que mais encontro na rotina clínica. Cães acima do peso tendem a se tornar mais seletivos. Sempre avalio se a perda de um pouco de peso poderia ajudar, porque isso realmente faz diferença no apetite. Além disso, cães com excesso de peso costumam rejeitar mais os vegetais e os suplementos da dieta.
Constipação
Vale tanto para cães quanto para gatos. É difícil sentir fome quando o intestino está cheio de fezes e funcionando lentamente. Observe se seu peludo faz cocô regularmente e como estão as fezes.
Atividade física diária, hidratação adequada e fibras são fundamentais. Uma estratégia simples é acrescentar abóbora cozida, correspondente a cerca de 5% a 10% da dieta.

Excesso de petiscos
Alguns casos melhoram apenas com ajustes no manejo alimentar. Quando o cachorro recebe uma quantidade excessiva de petiscos muito saborosos ao longo do dia, ele passa a saciar a fome com guloseimas e perde o interesse pelas refeições. É como acontece com uma pessoa que passa o dia beliscando.
Calor
Todos os anos, quando chega o calor intenso, observo meus próprios animais e muitos pacientes subitamente menos interessados nas refeições, especialmente nas oferecidas pela manhã. Isso costuma ser sazonal e melhora conforme o organismo se adapta. Servir a comida fria ou levemente gelada e concentrar as refeições no fim do dia costuma ajudar.
Febre, mal-estar e dor
Mudanças bruscas no comportamento alimentar podem ser consequência de febre, mal-estar ou dor — inclusive dor dentária. Depois de uma anamnese cuidadosa, é importante realizar um exame físico completo e, quando necessário, solicitar exames que investiguem processos infecciosos, como a doença do carrapato, uma causa relativamente comum de redução súbita do apetite.

Quadros gastrintestinais
Esse é um dos motivos mais importantes para cães cronicamente seletivos. Com frequência encontro alterações digestivas em Chihuahuas, Biewer Terriers, Westies e Malteses atendidos por consumo irregular de alimentos. É preciso ficar atento a sinais mais discretos, como vômitos biliosos, ingestão de objetos não comestíveis (papel, cabelo, tecidos), vômito de alimento horas após a refeição, gases, arrotos, ruídos digestivos, lambedura de superfícies, paredes ou tecidos, ficar mascando, estalos de lábios, lambedura frequente do nariz e consumo excessivo de grama, principalmente pela manhã. Quando tratamos refluxo, gastrite, digestão lenta ou outros distúrbios digestivos e o apetite se restabelece, fica evidente que a seletividade era sintoma de um problema gastrintestinal.
Doença renal
A doença renal é uma das causas mais comuns de perda de apetite em animais idosos que sempre comeram bem. A uremia provoca gastrite, náusea e mal-estar. Por isso, sempre que atendo um paciente sênior com esse histórico, solicito a dosagem de ureia e creatinina.
Reação adversa a medicamentos
Alguns medicamentos podem reduzir o apetite. Antibióticos podem causar esofagite ou gastrite. Anti-inflamatórios não esteroidais, como carprofeno e meloxicam, também podem provocar alterações digestivas. Anestésicos costumam reduzir o apetite de forma transitória. Trilostano e quimioterápicos também podem ter esse efeito. Converse sempre com a veterinária responsável. Muitas vezes, basta ajustar a dose, associar protetores gastrintestinais ou mudar a estratégia terapêutica.

Já passou por algo assim?
Aqui em casa percebemos que nossos gatos reduzem o consumo de alimento quando ficam constipados. Também já convivemos com cachorrinhas bem idosas que passaram a apresentar intensa seletividade alimentar após desenvolverem doença renal crônica.
E você? Já viveu alguma situação parecida com seu peludo?
Sylvia Angélico
Médica Veterinária
pós-graduada em Nutrição Animal
CRMV-SP 29945
Comunicado Cachorro Verde
As informações divulgadas em nossas postagens possuem caráter exclusivamente educativo e não substituem as recomendações do médico-veterinário do seu cão ou gato. Por questões ético-profissionais, a Dra. Sylvia Angélico não pode responder certas dúvidas específicas sobre questões médicas do seu animal ou fazer recomendações para seu pet fora do âmbito de uma consulta personalizada. Protocolos de tratamento devem sempre ser elaborados e acompanhados pelo médico-veterinário de sua confiança.
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