Eu não exagero ao dizer que os passeios com a Zuri são o ponto alto dos meus dias. Há sete meses ela chegou para alegrar minha rotina, e já testamos diferentes formatos de caminhada. O que funciona melhor é fazer duas saídas diárias de cerca de 40 minutos — uma às 7h e outra às 18h.

Para a Zuri, o passeio é a oportunidade para muita cachorreirice: ela fareja, persegue aves, vê muitos cães e pessoas, pisa na grama e na terra, cisca depois de fazer xixi e escolhe com muito zelo o cantinho para o seu valioso “número 2”. Para mim, é um momento de relaxamento mental e presença. Assumo o papel de guia, desviando-a do meio-fio, do lixo reciclável (ela gosta de fazer xixi neles) e dos restos de comida no chão. Também fico atenta à aproximação de cães, porque na guia ela é reativa.

Enquanto ciceroneio a pequena tenho boas ideias para textos e desafios terapêuticos — que eu corro para anotar assim que chego em casa. Vivemos em um bairro urbano: calçadas irregulares (já rompi um ligamento ao tropeçar numa delas), poucas áreas verdes, muito barulho e, infelizmente, bastante sujeira. Ainda assim, saímos todos os dias — e curtimos. Nos passeios, gosto de imaginar que a Zuri é um canídeo selvagem, percorrendo seu território com diligência. E fico pensando em como deve ser rico experienciar o ambiente pelo olfato.

Os cães dependem de nós para ver o mundo. Às vezes, uma cliente me conta que nunca passeia com seu cachorro. Compreendo que, em alguns casos, haja limitações reais — como fobias ou questões de saúde. Mas, com frequência, o cão permanece em casa porque “dorme na cama comigo”, “já brinca o suficiente apartamento” ou “não quero que pegue pulga, verme ou carrapato”. Essas respostas me entristecem, pois passeios ao ar livre são um pilar importante da saúde integral. Não é uma regra, é claro, mas percebo uma associação entre cães que nunca passeiam e sintomas e quadros causados ou agravados por estresse, como lambedura de patas, coceiras e problemas gastrintestinais.

Não por acaso, os cães mais longevos do mundo faziam caminhadas diárias. E se você quiser conhecer outros dez bons motivos para sair com seu cão (ou gato, se ele for confiante), confira a seguir.

Menos estresse e ansiedade

Explorar, caminhar e usar o nariz liberam serotonina — associada à sensação de bem-estar e relaxamento — e reduzem os níveis de cortisol, o hormônio do estresse. Cães que passeiam regularmente, com liberdade para farejar, tendem a ser menos ansiosos, o que ajuda a diminuir comportamentos indesejados, como latir em excesso, se lamber ou e destruir objetos.

Estreita o vínculo tutora-pet

A saída para passear tem um quê de “caçada” — prática que a humanidade realizava ao lado dos cães há cerca de trinta mil anos, fortalecendo nossa relação simbiótica. Exercitar comportamentos ligados à caça, como farejar, rastrear e percorrer distâncias ao nosso lado, é altamente gratificante para o cão. Isso estimula a liberação de neurotransmissores como a serotonina, associados à sensação de bem-estar, e faz com que ele nos perceba como parceiros nessa experiência tão prazerosa.

Previne problemas musculoesqueléticos

Sem movimentação, as articulações produzem menos líquido sinovial — substância que as lubrifica e ajuda a prevenir processos degenerativos. Caminhar de forma vigorosa também fortalece músculos e tendões. Para cães em fase sênior ou idosos, esse cuidado é ainda mais importante, pois eles são mais predispostos à artrose e à perda de massa muscular. E se pudererem caminhar intercalando diferentes graus de inclinação, melhor ainda.

Promove sede e apetite

Tem um cãozinho com apetite caprichoso ou que bebe pouca água? Passear de forma vigorosa antes das principais refeições do dia pode estimular tanto a sede quanto a fome. E, ao contrário do que muitos pensam, não há problema em o cão saudável se exercitar em jejum.

Proteção cardiovascular

A atividade física regular fortalece o sistema cardiovascular dos cães, melhora a circulação sanguínea e ajuda a manter a pressão arterial sob controle. Caminhadas diárias e de intensidade moderada estimulam o coração sem sobrecarregá-lo, promovendo condicionamento físico e resistência. Mesmo cães com alterações cardíacas iniciais ou moderadas podem se beneficiar com o movimento controlado, desde que com orientação veterinária.

Função cognitiva

Passeios regulares estimulam o cérebro dos cães por meio de novos cheiros, sons, rotas e interações, funcionando como uma verdadeira “academia mental”. A variedade de estímulos ativa funções cognitivas como memória, atenção e resolução de problemas. Além disso, a rotina de exploração reduz o estresse, o que favorece a plasticidade cerebral e o aprendizado. Passear é exercício para o corpo e, sobretudo, para a mente.

Sono e ciclo circadiano

Passear, especialmente nas primeiras horas da manhã, ajuda a sincronizar o organismo do cão com o ciclo circadiano. A exposição à luz natural é captada pela glândula pineal, que ajusta a liberação de hormônios importantes, como a melatonina e o cortisol, de acordo com o período do dia. Essa regulação hormonal favorece o bom funcionamento do metabolismo, melhora o estado de alerta durante o dia e contribui para um sono mais profundo e reparador à noite.

Prevenção de obesidade

A atividade física vigorosa e regular sozinha não faz milagre – é fundamental também controlar a ingestão calórica. Mas que ajuda, ajuda, porque se mexer gasta energia e mantém a musculatura tonificada. Meia hora de caminhada a cerca de 4km por hora – um ritmo moderado, confortável – pode levar um cachorro de 10kg a perder até 70kcal.

Diversifica o microbioma intestinal

Ao cheirar, pisar, lamber terra e grama – e até pelo contato com fezes de outros animais – os cães entram em contato com microorganismos que podem ajudar a diversificar o seu microbioma intestinal, como Bacillus spp, Lactobacillus spp e Streptomyces spp. É a tal “vitamina S” – “s” de sujeira boa. Quanto mais “guardado” o pet fica em um ambiente limpíssimo, mais predisposto a hipersensibilidades (alergias).

Glândula adanal e circulação linfática

Cães sedentários tendem a apresentar mais acúmulo e inflamação nas glândulas adanais, aquelas ao lado do ânus que produzem uma substância oleosa e malcheirosa. Caminhar vigorosamente de forma regular estimula a contração muscular, o que favorece a circulação linfática, facilitando a remoção de toxinas e reforçando o sistema imunológico, além de favorecer a drenagem natural das glândulas adanais.

Considerações finais

Se você não passeava com seu cão, mas se sentiu inspirado com o conteúdo desta postagem, saiba que um passeio consciente de 20 minutos por dia — ou 30 minutos, três vezes por semana — já é um ótimo começo. Quanto mais, melhor, desde que, claro, seu doguinho goste e tolere bem. Tem um cãozinho que não curte passear? Isso pode ser trabalhado com a ajuda de um bom educador canino. E lembre-se: escolha os horários mais frescos do dia, use sempre guia e coleira e leve o saquinho para recolher o cocô.

Sylvia Angélico
Médica Veterinária
pós-graduada em Nutrição Animal
CRMV-SP 29945

Comunicado Cachorro Verde

As informações divulgadas em nossas postagens possuem caráter exclusivamente educativo e não substituem as recomendações do médico-veterinário do seu cão ou gato. Por questões ético-profissionais, a Dra. Sylvia Angélico não pode responder certas dúvidas específicas sobre questões médicas do seu animal ou fazer recomendações para seu pet fora do âmbito de uma consulta personalizada. Protocolos de tratamento devem sempre ser elaborados e acompanhados pelo médico-veterinário de sua confiança.

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