Você com certeza já viu isso: o cocô fica parcialmente — ou totalmente — gelatinoso. Ou está firme, mas recoberto por um “catarro”. Às vezes, parece estar “encapado” por uma película de plástico fino. Tudo isso é sinal de eliminação de muco. Mais do que vômito, coceira ou diarreia aquosa, a presença de muco nas fezes do pet é, disparado, o sinal clínico que as clientes mais me relatam.

A primeira suspeita que costuma surgir — tanto entre responsáveis quanto entre muitos veterinários — é verminose, especialmente giárdia. Se o peludo começa a arrastar o traseiro no chão, então, a desconfiança aumenta. Na verdade, esse comportamento geralmente indica que as glândulas anais estão cheias, muitas vezes porque as fezes estão mais amolecidas e não conseguem esvaziá-las adequadamente durante a evacuação. Daí, muitos já correm para o vermífugo.

Mas, pela minha experiência clínica, fezes com muco têm bem menos relação com parasitoses intestinais do que se imagina. Aqui em casa, com a Zuri, isso acontece com alguma frequência. Ela tem um intestino mais sensível, já apresentou disbiose e, além disso, parece um aspirador de pó durante os passeios. Vira e mexe preciso retirar algo da boca dela — restos de pão de queijo, pedaços de osso, entre outros. E, vez ou outra, basta um segundo de distração minha para que ela engula algo que nem consigo identificar. O resultado costuma ser um episódio leve de colite, aquele cocô mais molinho, com muco.

Quando isso acontece, recorro a uma abordagem simples: ofereço uma dose de probiótico — como Floratil 200 ou Repoflor 200 — besuntado em um pouquinho de óleo de coco ou manteiga. Na maioria das vezes, uma única dose já resolve; em alguns casos, mantenho por até três dias.

Mais preocupante do que vermifugar indiscriminadamente é o uso arbitrário de antibióticos, como o metronidazol. A World Small Animal Veterinary Association (WSAVA), em conjunto com a European Network for Optimization of Veterinary Antimicrobial Treatment (ENOVAT), recomenda que a grande maioria dos casos leves a moderados de alterações fecais em cães — mesmo quando tem presença de sangue — seja manejada sem antibióticos. O uso excessivo desses medicamentos prejudica a microbiota intestinal e contribui para a resistência bacteriana, um seríssimo problema global que afeta humanos e animais.

Confira o artigo completo abaixo e entenda melhor as principais causas de muco nas fezes e como manejar, com tranquilidade, a maior parte desses episódios.

De onde vem esse muco?

Ele geralmente é resultado de uma colite, ou seja, uma inflamação do cólon — a porção do intestino grosso responsável por absorver a água das fezes, deixando-as mais sequinhas. É também nessa região que se concentra a maior parte da microbiota intestinal. Quando chega ao cólon um alimento mal digerido ou algo diferente do que o animal está acostumado a consumir, a interação com essa microbiota pode gerar irritação. Como resposta, o funcionamento da mucosa intestinal fica alterado e pode aumentar a produção de muco — um mecanismo de defesa.

A colite é uma emergência?

Em geral, não. O cólon — e o intestino grosso como um todo — não está diretamente envolvido nas etapas mais complexas da digestão e da absorção de nutrientes. Por isso, episódios de colite, inclusive quando crônicos, raramente debilitam o animal. Na maioria das vezes, o pet permanece ativo, com bom apetite e mantém o peso — mas faz cocô gosmento.

E quando tem sangue vivo?

Pode assustar ver sangue vivo nas fezes do cachorro ou do gato, mas, na maioria das vezes, isso não significa que o quadro seja mais grave. Muita gente pensa logo em algo mais sério, como uma perfuração intestinal, mas, em geral, o que acontece é que a mucosa do cólon é bastante vascularizada e, quando está inflamada, pode sofrer pequenas lesões, rompendo vasinhos sanguíneos. Na dúvida, claro, consulte a veterinária de confiança de vocês. Mas é importante saber: a presença de sangue, por si só, não é indicação automática para uso de antibiótico.

Causas alimentares comuns

Pela minha experiência, as causas mais comuns de colite pontual são mudanças bruscas na dieta — como introdução inadequada da Alimentação Natural, início repentino de suplementos ou ingestão de alimentos diferentes em passeios, lixo ou eventos familiares (festas, churrascos). Também são frequentes os casos após consumo de itens mais indigestos (como mastigáveis cartilaginosos, orelhas, vergalhos) ou alimentos com efeito laxativo, como sardinha, ovo cru, fígado em excesso e alguns vegetais, como abóbora, quiabo, inhame, berinjela e jiló.

Causas não relacionadas a alimentos

Tudo o que interfere nos processos digestivos ou na microbiota intestinal pode desencadear colite. Hoje, já reconhecemos bem a chamada colite por estresse, comum em pets que ficam em hotelzinho ou logo após retornarem para casa. Além disso, alguns medicamentos também podem estar envolvidos, como anti-inflamatórios não esteroidais (meloxicam, firocoxib, carprofeno), antibióticos e inibidores da secreção gástrica, como o omeprazol. E, claro, as verminoses intestinais também entram como possível causa.

O que pode ajudar?

Em casos de episódios pontuais, como os que relatei sobre a minha cachorrinha Zuri, e em animais que estão bem clinicamente — alertas, comendo normalmente, sem febre e bem hidratados —, costumo recomendar uma abordagem simples: administrar um probiótico (uma vez ao dia ou a cada 10 horas, por um a três dias), manter uma dieta já conhecida e bem tolerada, evitando os ingredientes e petiscos mais arriscados que mencionei anteriormente, e acompanhar a evolução.

Quando se preocupar

Se o quadro não melhorar em três a cinco dias, ou se surgirem outros sinais clínicos — como vômitos, fezes aquosas, prostração ou perda de apetite —, é importante procurar a veterinária clínica-geral de confiança para uma investigação, tratamento e acompanhamento adequados. Nesses casos, é fundamental descartar corretamente causas como verminoses, infecções, pancreatite, entre outras possibilidades.

Muco persistente nas fezes

Seu pet apresenta fezes amolecidas com muco com frequência, mesmo sem os gatilhos mais comuns? Muitos quadros intermitentes de colite podem ser manejados com a adição adequada de fibras solúveis na dieta. Se você oferece Alimentação Natural caseira, uma estratégia simples é incluir psyllium em pó na proporção de 1% a 1,5% do total diário de alimento. Por exemplo: se o seu cachorro consome 300 g de comida por dia, você pode adicionar cerca de 3 g (aproximadamente uma colher de chá), misturando bem ao total diário de comida.

Intolerância alimentar

Se, mesmo com os cuidados já mencionados e a adição de fibra solúvel, a colite continuar ocorrendo, é importante considerar a possibilidade de intolerância a um ou mais componentes da dieta. Entre os desencadeantes mais comuns estão frango, carne bovina, lácteos, alimentos com glúten, cenoura e até alguns suplementos, como o multivitamínico-mineral ou o óleo de peixe. Nesses casos, vale buscar uma veterinária nutróloga ou integrativa com experiência em quadros digestivos para conduzir uma dieta de exclusão bem estruturada e identificar os possíveis alimentos ou suplementos reativos.

Os principais pontos

Episódios leves e circunstanciais de colite podem ser, em grande parte dos casos, solucionados com probiótico. Não recorra automaticamente à vermifugação, sobretudo a antibióticos. Quadros intermitentes não-relacionados aos principais “gatilhos” (mudanças na dieta, estresse, medicamentos) podem ser prevenidos com adição de fibras solúveis à alimentação. Casos ainda persistentes merecem investigação e acompanhamento profissional.

E quando aparece só um pouquinho de muco, de vez em quando? Um ‘fiozinho’? Na maioria das vezes, considero normal — apenas observo.

Dietas equilibradas, com fibras

O nosso livro de receitas de Alimentação Natural para cães e gatos, com mais de 100 dietas elaboradas por mim, já contêm adição adequada de fibras para resultar em cocôs bonitos e bem formados. O livro traz o passo-a-passo de cada dieta, a suplementação indicada e até informa a quantidade a servir por dia de acordo com o peso e a idade do seu peludo.

Sylvia Angélico
Médica Veterinária
pós-graduada em Nutrição Animal
CRMV-SP 29945

Comunicado Cachorro Verde

As informações divulgadas em nossas postagens possuem caráter exclusivamente educativo e não substituem as recomendações do médico-veterinário do seu cão ou gato. Por questões ético-profissionais, a Dra. Sylvia Angélico não pode responder certas dúvidas específicas sobre questões médicas do seu animal ou fazer recomendações para seu pet fora do âmbito de uma consulta personalizada. Protocolos de tratamento devem sempre ser elaborados e acompanhados pelo médico-veterinário de sua confiança.

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