Os últimos filhotes cujo crescimento acompanhei de perto, em casa, foram a Corah, minha Golden Retriever, que nos deixou em 2020, e a minha gata Lenù, adotada com apenas 3 meses, em 2021. Maya e Polly, hoje estrelinhas, além dos atuais Zuri e do Frajola, chegaram para mim já adultos.

Ter um cão ou gato desde filhote tem uma vantagem enorme — e não é só porque bebês são uma delicinha. Essa é uma fase em que conseguimos influenciar profundamente o desenvolvimento comportamental e diversos aspectos fundamentais da saúde, como a formação do microbioma intestinal e até a predisposição a alergias futuras. Tudo isso ajuda a moldar diretamente o adulto que eles se tornarão.

Este post reúne as recomendações que considero mais importantes e com maior impacto para toda a vida do seu pet. Se há um filhote na sua casa — ou a caminho — aproveite essa fase super moldável e plástica, para construir as bases da saúde física e emocional do seu peludo. O objetivo é formar um companheiro feliz, longevo, emocionalmente equilibrado e menos propenso a doenças crônicas, como alergias e quadros articulares, metabólicos e digestivos.

Pode ser que, para colocar algumas dessas orientações em prática (caso elas façam sentido para você), seja importante contar com o acompanhamento de uma médica-veterinária que não atue apenas dentro do modelo 100% convencional. Vale a pena buscar ativamente uma veterinária “de família” que se reconheça como funcional, pró-ativa ou integrativa; esses costumam trabalhar de forma semelhante à minha. Talvez você esteja pensando: “Mas meu gato ou cachorro já é adulto. Essas orientações ainda servem?” Servem, sim. Sempre há tempo para promover mudanças positivas e melhorar a saúde do animal sob os nossos cuidados — ainda que, naturalmente, com mais limitações. Inclusive, é por acreditar nisso que escolho adotar pets adultos. 

Socialize e eduque

Socialização bem feita e educação consciente feita durante a infância do filhote é crucial. É muito menos estressante para todo mundo, sobretudo para seu pet, quando ele lida razoavelmente bem com situações diversas, como avistar outros cães no passeio, receber pessoas diferentes em casa, visitar o veterinário e permitir cuidados importantes e corriqueiros, como escovação dos dentes, corte de unhas e coleta de sangue. Vale demais o investimento de buscar orientação profissional (bem recomendada).

Rotina

Procure proporcionar uma rotina consistente e previsível que faça seu gatinho ou cão se sentir seguro. Percebo que isso, juntamente com atividade física e mental diária, ajuda a reduzir ansiedade. É fundamental criar e manter momentos no cotidiano para brincadeiras/interações, passeios, refeições, descanso, higiene (escovação de dentes, inspeção da pele e ouvidos etc) e enriquecimento ambiental.

Esterilização

Ao optar por castrar, seu cão prefira fazê-lo após o completo amadurecimento físico, que varia conforme o porte e a raça. Já os gatos parecem ser menos afetados pela castração precoce. Diversos estudos científicos, desde o início dos anos 2000, vêm associando a castração pediátrica e pré-púbere dos cães (realizada antes da puberdade) ao aumento do risco de quadros ortopédicos, endocrinológicos e oncológicos (Romagnoli et al., 2024). Hoje já é possível esterilizar o cão sem afetar a produção de hormônios, através da histerectomia (remoção apenas do útero), nas cadelas, que também evita a piometra, e vasectomia nos machos. Recomendo uma conversa sem pressa com um veterinário atualizado sobre o tema, que poderá recomendar a conduta ou técnica cirúrgica mais adequada considerando a realidade do animal e da família.

Vacinação

A individualização das condutas aparece em vários quadrinhos desta postagem — e aqui também. A meu ver, o ideal é que a escolha das vacinas do filhote seja pautada em fatores como onde vive, com quem vive e como vive. O cãozinho tem risco significativo de contrair leptospirose? Vai frequentar creche? E o gatinho, há risco de clamidofilose? Existem outros gatos na casa? São positivos para FeLV (leucemia felina)? Quais vacinas o filhote recebeu no criador ou no abrigo? Com base nessas respostas, montamos um esquema vacinal personalizado, buscando proteção adequada sem excessos.

Seja guardiã da microbiota intestinal

A administração de antibióticos merece atenção em qualquer idade, pelo potencial de selecionar microrganismos resistentes, mas especialmente em filhotes, quando a microbiota intestinal e a resposta imunológica ainda estão em formação. Antibióticos devem ser utilizados apenas quando imprescindíveis, como nos casos de erliquiose. Já nas diarreias simples — comuns nessa fase da vida — devem ser evitados. Estudos (Shmalberg et al., 2019) vêm demonstrando que o uso de probióticos pode ser tão ou mais eficiente que antibióticos, sem os riscos de efeito rebote, gastrite, disbiose e indução de resistência bacteriana.

Vitamina “S”

Nada de criar o filhote sempre confinado dentro de casa. Estudos mostram (Hakanen et al., 2021; Lehtimäki et al., 2018) que cães criados sem acesso à terra, à diversidade de vegetação e ao contato com outros animais — e muito expostos apenas à poeira doméstica — apresentam menor diversidade microbiana na pele e no intestino. Essa menor diversidade influencia diretamente a regulação do sistema imune, predispondo ao aumento da permeabilidade intestinal e a respostas alérgicas mais intensas.

Evite escadas

Estudos (Krontveit et al., 2012; Colborn et al., 2010) verificaram que filhotinhos de cães que regularmente subiam escadas entre 45 dias e 3 meses de vida apresentaram maior risco de desenvolver displasia coxofemural. Já a prática de exercício ao ar livre em terreno natural e irregular reduziu esse risco.

Aprenda a remediar diarreias e vômitos

Filhotes exploram o mundo com a boca, têm trânsito intestinal mais acelerado, microbiota em formação e podem ser bastante “esganados” com comida (e objetos, plantas, fezes… tudo rs). Resultado: é comum, vez ou outra, apresentarem diarreia ou vômito. Como mencionei anteriormente, evite tratar diarreias agudas em filhotes saudáveis — ativos, sem febre e com apetite — com antibióticos (sulfas, metronidazol etc.). Episódios ocasionais costumam responder bem a probióticos (pessoalmente, gosto bastante dos à base de Saccharomyces boulardii) e carvão ativado. Dieta simples, sem petiscos, e caldo de ossos ajudam na recuperação.

Prefira dietas e petiscos naturais

O grupo de pesquisadoras DogRisk, da Universidade de Helsinki, vem demonstrando que o tipo de dieta servida durante a fase de filhote e adolescência pode influenciar a saúde intestinal na vida adulta. Estudos com milhares de cães mostraram associação entre dieta natural instituída a filhotes e menor risco de enteropatias crônicas. Essas pesquisas sugerem que dietas minimamente processadas e variadas favorecem uma microbiota mais rica e equilibrada, o que parece contribuir para melhor regulação do sistema imune. O fenômeno é conhecido como programação metabólica e imunológica precoce (Vuori et al., 2023).

Ômega-3

Um suplemento muito importante durante o crescimento é o ômega-3 (DHA e EPA), que participa da formação do sistema nervoso central e da retina, além de atuar no desenvolvimento cognitivo, favorecendo aprendizado e resposta ao treinamento. Recomendo oferecer suplemento de ômega-3 (óleo de peixe) diariamente ou 3x por semana, ou incluir cerca de 5% de sardinha na dieta — opção interessante por concentrar um pouco mais de DHA que EPA, justamente o ômega-3 mais valioso para filhotes (e velhinhos). A dose que sugiro é de cerca de 50 mg de DHA + EPA somados para cada kg de peso do filhote.

Livro

Quer começar a Alimentação Natural (AN) para seu filhote, mas tem receio de errar e prejudicar essa fase tão exigente do desenvolvimento? As dietas do meu livro Receitas de Alimentação Natural podem te ajudar nisso. Nele, você encontra formulações específicas para gatinhos e cãezinhos filhotes, com orientações sobre a suplementação adequada de vitaminas, minerais, ácidos graxos e taurina, além de uma tabela prática para consultar a quantidade diária de alimento conforme o peso e a idade do filhote. É AN com muita praticidade e segurança.

Sylvia Angélico
Médica Veterinária
pós-graduada em Nutrição Animal
CRMV-SP 29945

Comunicado Cachorro Verde

As informações divulgadas em nossas postagens possuem caráter exclusivamente educativo e não substituem as recomendações do médico-veterinário do seu cão ou gato. Por questões ético-profissionais, a Dra. Sylvia Angélico não pode responder certas dúvidas específicas sobre questões médicas do seu animal ou fazer recomendações para seu pet fora do âmbito de uma consulta personalizada. Protocolos de tratamento devem sempre ser elaborados e acompanhados pelo médico-veterinário de sua confiança.

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