Eu confesso que no início não compreendia bem a importância das fibras. Por não serem nutrientes essenciais, achava que incluir vegetais já bastava. Pensava que serviam para dar saciedade, reduzir o índice glicêmico da dieta de pets diabéticos e ajudar cães e gatos constipados. Entendimento superficial para algo que é, na verdade, uma ferramenta terapêutica formidável.

Hoje, enxergo o teor adequado de fibras como tão importante quanto incluir vísceras ou suplementos. Elas fazem parte das dietas que prescrevo e estão presentes nos conteúdos dos cursos e no meu livro recente. O tipo e a quantidade corretos de fibras podem ser a diferença entre fezes amolecidas ou com muco e um cocô bonito todo dia. E sim, isso vale também para gatos, sobretudo porque muitos têm tendência a constipar e formar bolas de pelo.
Publicações científicas mostram que, para aumentar a resiliência e diversidade do microbioma intestinal, devemos apostar nas fibras, que funcionam como “adubo” para as bactérias benéficas, muito mais do que em probióticos isolados. Um estudo (Ganz et al., 2022) mostrou que gatos alimentados com ração apresentaram microbioma mais diverso do que os que receberam dieta natural sem vegetais — provavelmente porque a ração geralmente combina diferentes fontes de fibras que estimulam essa variedade.
Quer mais um motivo para incluir fibras em dietas com carnes cruas? A fermentação de fibras solúveis pelo microbioma intestinal favorece o crescimento de colônias bacterianas saudáveis em detrimento das patogênicas, reduzindo o risco de desenvolvimento de infecções e transmissão de patógenos. No ambiente natural felinos e lobos consomem gramíneas. Esses últimos também comem frutinhos e fezes de herbívoros, ricos em fibras, além de partes não digeridas de presas — pêlos, penas, cartilagem — com ação similar a das fibras vegetais.
Saber usar fibras é uma mão na roda para manejar muitos quadros de forma simples, segura e econômica, reduzindo o uso de antibióticos e medicamentos fortes. Existem fibras solúveis, insolúveis, mistas, suplementos e alimentos ricos em fibras… Mas quais realmente funcionam para nossos pets, quanto adicionar e como? Confira essa postagem.

Classificação
As fibras se diferenciam por três aspectos: grau de solubilidade, fermentabilidade e grau de viscosidade.
Grau de solubilidade
As fibras podem ser solúveis, insolúveis ou mistas, e conhecê-las é fundamental para aprender a regular o intestino do seu pet.
- As fibras solúveis formam um gel no intestino, aumentam a sensação de saciedade, ajudam a reduzir triglicerídeos e colesterol e, ao retardarem o trânsito gastrointestinal, auxiliam no controle de diarréias. Exemplos incluem a polpa de beterraba (comum em rações), as beta-glucanas da aveia e de cogumelos, e a pectina da maçã.
- As fibras insolúveis captam água no cólon, aumentam o volume das fezes e aceleram o trânsito intestinal, sendo indicadas para aliviar constipação. Exemplos: folhas verde-escuras picadinhas e celulose em pó.
- Já as fibras mistas combinam os benefícios de ambos os tipos. É o caso das sementes de linhaça, de chia e da minha queridinha, o psyllium, que contém cerca de 60% de fibra solúvel e 40% de insolúvel. Por isso, dizemos que a psyllium é reguladora, podendo ser indicada tanto em quadros de fezes amolecidas quanto em episódios de constipação leve.
Grau de fermentabilidade
Outro ponto importante: algumas fibras são bifidogênicas, ou seja, prebióticas. Isso significa que elas estimulam o crescimento e a diversidade de microrganismos benéficos no intestino, trazendo uma série de efeitos positivos para o organismo — desde a modulação de processos inflamatórios até melhora da imunidade e redução de comportamentos de agressividade, ansiedade e medo.
As fibras fermentáveis funcionam como um “adubo” para essas bactérias. Durante a fermentação, produzem ácidos graxos voláteis — como butirato, acetato e propionato — que inibem bactérias patogênicas, aumentam a diversidade microbiana e fortalecem colônias saudáveis, ajudando a corrigir ou suavizar a disbiose intestinal.
Exemplos de fibras fermentáveis: inulina e FOS (presentes no alho, chicória e batata yacón), beta-glucanas (aveia, cogumelos) e pectina da maçã e de vegetais crucíferos, como brócolis, repolho e couve-flor.
Exemplos de fibras não fermentáveis: psyllium, MOS (mananoligossacarídeos) e celulose.
Ou seja, o psyllium pode regular o trânsito intestinal, mas não exerce efeito direto sobre o microbioma.
Grau de viscosidade
As fibras podem ser mais ou menos viscosas. As fibras mais viscosas, como a psyllium, beta-glucana, pectina e goma guar, formam um gel no intestino. Isso capta água, o que deixa as fezes mais macias, ajudando a regular o funcionamento intestinal. Já a celulose não tem viscosidade.

Quais incluir na dieta?
Pensando em promover saúde intestinal, o que significa tanto um cocô bem formado e regular quanto um microbioma diversificado e equilibrado, a dieta deve conter tanto fibras reguladoras como fibras bifidogênicas (prebióticas).
Vegetais prebióticos
Vegetais variados devem compor cerca de 3% a 10% da dieta dos gatos e 10% a 30% da dos cães, conforme os objetivos e o tipo de alimentação adotada.
Entre as melhores opções com efeito prebiótico, destacam-se chicória, crucíferas (nabo, couve, rúcula, brócolis, repolho e couve-flor), aspargos, banana mais verde, alho (veja a postagem anterior), maçã e amoras. A inclusão de 2,5% a 5% desses vegetais na dieta dos gatos e de 5% a 10% na dos cães já costuma trazer excelentes resultados.
Os cogumelos cozidos — todos os que são seguros para consumo humano — também são ótimos prebióticos e podem representar 1,5% a até 3% da dieta de cães e gatos.
Vale lembrar que a adição de vegetais com ação prebiótica é benéfica inclusive em dietas com carnes cruas, pois ajuda a inibir a proliferação de microrganismos potencialmente patogênicos.
Fibras reguladoras
Incluir vegetais na dieta fornece alimento para as bactérias benéficas do intestino, mas nem sempre garante fibra suficiente para um trânsito intestinal estável — sem aquelas oscilações entre fezes amolecidas com muco e episódios de ressecamento.
Para isso adicione uma fonte de fibra mista à dieta, como a psyllium, as sementes de chia gelificadas (veja as orientações a seguir) ou um bom suplemento comercial de fibras. Basta uma pequena quantidade para obter ótimos resultados: cerca de 1% do total da dieta caseira.
Na prática, por exemplo, adiciono 3g de psyllium às 300g diárias da dieta natural da minha cachorrinha Zuri, divididas entre as duas refeições. Ah! E não é preciso hidratar a fibra psyllium; basta misturar na comida.

Sementes gelificadas
A mucilagem solúvel de sementes como chia e linhaça forma um gel que retarda a digestão, ajudando a absorver melhor nutrientes e ajuda a regular o funcionamento intestinal.
Gelificando chia
Proporção: 1 colher de sopa de chia para 100 ml de água filtrada.
Misture bem e deixe descansar 15–30 min, mexendo de vez em quando.
Resultado: um gel viscoso, que pode ser armazenado em pote tampado em geladeira por até 5 dias.
Gelificando linhaça
Proporção:1 colher de sopa de linhaça dourada* em 3 colheres de sopa de água filtrada.
Misture bem e deixe hidratar por 8-12h, mexendo de vez em quando.
Resultado: um gel espesso, que pode ser armazenado em pote tampado em geladeira por até 5 dias.
Obs: a linhaça dourada é mais indicada que a marrom por concentrar menos ácido erúcico, um ácido graxo que pode pode fazer mal em excesso, e também em geral menos resíduos de agrotóxicos.

Comparativo de fibras
| Fonte | Viscosidade | Solúvel ou insolúvel | Fermentabilidade |
|---|---|---|---|
| Linhaça (semente) | Média | Insolúvel (70%) / Solúvel (30%) | Moderada |
| Chia (semente) | Alta | Solúvel (85%) / Insolúvel (15%) | Baixa |
| Farelo de aveia | Média-alta | Solúvel (50%) / Insolúvel (50%) | Moderada-alta |
| FOS (suplemento) | Baixa | Solúvel | Alta |
| Levedura de cerveja | Baixa | Insolúvel (MOS) / Solúvel (β-glucanas) | Moderada |
| Psyllium | Alta | Solúvel (60%) / Insolúvel (40%) | Moderada |
| Celulose (isolada) | Baixa | 100% insolúvel | Baixa |
| Brócolis | Média-baixa | Insolúvel predominante / Solúvel menor | Moderada |
| Batata yacón | Média | Solúvel predominante | Alta |
| Chicória (raiz) | Média | Solúvel predominante | Alta |
| Farinha de banana verde | Baixa-média | Solúvel (60%) / Insolúvel (40%) | Alta |
| Abóbora cabotiá | Baixa-média | Solúvel (40%) / Insolúvel (60%) | Moderada |
| Abóbora moranga | Média | Solúvel (50%) / Insolúvel (50%) | Moderada |
| Maçã (polpa) | Média | Solúvel (30%) / Insolúvel (70%) | Moderada |
Resumindo
Para o pet fazer regularmente cocô bem formado adicione uma fonte de fibra mista (como psyllium) diariamente à Alimentação Natural caseira do seu peludo, como 1% do total de alimento servido.
Para promover um ecossistema intestinal saudável, equilibrado, inclua 3% na dieta dos gatos e 5 a 10% na dieta dos cães de alimentos prebióticos (bifidogênicos), como brócolis, couve-flor, nabo, aspargos, yacón, banana mais verde e maçã.
Considerações finais
As orientações desta postagem se aplicam a Alimentação Natural (AN) caseira. Já as dietas comerciais — tanto de AN quanto as rações — costumam conter quantidades adequadas de fibras.
Mantenha sempre água filtrada e fresca disponível. Pode parecer contraditório, mas a adição de fibras como psyllium, chia ou farinha de banana verde pode levar à constipação se o pet não estiver bem hidratado.
Lembre-se: a resposta às fibras é individual. Alguns animais se adaptam melhor à chia gelificada, outros ao psyllium, outros ainda a um suplemento comercial. Além disso, a quantidade ideal varia — alguns precisam de um pouco mais, outros de menos. Fique atenta ao cocô e à produção de gases, e ajuste conforme necessário.

Referências:
- Response of the gut microbiome and metabolome to dietary fiber in healthy dogs; Bhosle et al 2025. **https://doi.org/10.1128/msystems.00452-24**
- Effects of dietary cellulose on clinical and gut microbiota recovery in dogs with uncomplicated acute diarrhea: a randomized prospective clinical trial; Holz et al, 2024. doi: 10.2460/javma.24.07.0476
- The Impact of Fiber Source on Digestive Function, Fecal Microbiota, and Immune Response in Adult Dogs, Montserrat-Malagarriga et al, 2024. doi: 10.3390/ani14020196
- Applied Veterinary Clinical Nutrition, Fascetti et al, segunda edição, 2024.
- Dietary fiber aids in the management of canine and feline gastrointestinal disease; Moreno et al 2022. https://doi.org/10.2460/javma.22.08.0351
- The Kitty Microbiome Project: Defining the Healthy Fecal “Core Microbiome” in Pet Domestic Cats; Ganz et al, 2022. **https://doi.org/10.3390/vetsci9110635**
- Efficacy of feeding a diet containing a high concentration of mixed fiber sources for management of acute large bowel diarrhea in dogs in shelters; Lappin et al, 2022. doi: 10.1111/jvim.16360
- Fermentation of animal components in strict carnivores: a comparative study with cheetah fecal inoculum; Depauw et al, 2012. doi: 10.2527/jas.2011-4377
Sylvia Angélico
Médica Veterinária
pós-graduada em Nutrição Animal
CRMV-SP 29945
Comunicado Cachorro Verde
As informações divulgadas em nossas postagens possuem caráter exclusivamente educativo e não substituem as recomendações do médico-veterinário do seu cão ou gato. Por questões ético-profissionais, a Dra. Sylvia Angélico não pode responder certas dúvidas específicas sobre questões médicas do seu animal ou fazer recomendações para seu pet fora do âmbito de uma consulta personalizada. Protocolos de tratamento devem sempre ser elaborados e acompanhados pelo médico-veterinário de sua confiança.
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