Uma das dúvidas mais comuns de quem começa na Alimentação Natural é se dá para congelar a comida. A resposta é: sim, com tranquilidade. É possível congelar porções completas já montadas — ou os grupos de alimentos separadamente — por até cerca de 2 meses, desde que estejam bem acondicionadas, em recipientes resistentes e bem vedados. Para melhor preservação nutricional, de sabor e aroma (especialmente importante para focinhos exigentes), o ideal é trabalhar com prazos de 30 a 45 dias.

Se você tem cães de grande porte ou uma família de peludos, um freezer (vertical ou horizontal) faz toda a diferença — facilita demais a rotina. Quando eu alimentava quatro cães e dois gatos com AN crua com ossos, ter um freezer só para eles foi indispensável. Na prática, é o congelamento que viabiliza a AN para a maioria das pessoas. No caso de dietas cruas, ele ainda contribui como medida adicional de segurança (o chamado congelamento profilático).
E aqui vai o ponto-chave: não basta congelar, é preciso saber congelar bem — e o mesmo vale para o descongelamento. Alguns cuidados fazem toda a diferença no resultado final.

Freezer x congelador
Freezers e congeladores diferem em temperatura e eficiência: enquanto o freezer atinge cerca de -18 °C ou menos, de forma estável, o congelador da geladeira fica entre -6 °C e -12 °C, com maior oscilação. Isso faz com que o freezer congele mais rápido, formando cristais de gelo menores, preservando melhor textura, nutrientes e sabor, além de reduzir mais rapidamente a multiplicação de bactérias. Já no congelador, o congelamento mais lento leva à maior liberação de líquido no descongelamento e a maiores perdas nutricionais. O freezer é mais indicado para armazenar AN por 30 a 60 dias, enquanto o congelador é mais adequado para prazos curtos e apresenta menor estabilidade térmica.
Recipientes
O ideal para armazenar AN é utilizar recipientes de vidro, sempre bem vedados, pois evitam contaminação por microplásticos; porém, são mais pesados, quebram com facilidade e ocupam mais espaço no freezer. Caso opte por plástico, prefira os mais rígidos e em bom estado, descartando potes antigos, arranhados ou desgastados. Saquinhos podem ser uma alternativa prática, pois acomodam melhor no freezer, mas é importante colocar o alimento apenas após esfriar. Evite aquecer alimentos em recipientes plásticos, seja no microondas ou em preparo tipo sous vide. Para higienização, lave potes e saquinhos com água fria e detergente neutro.
Perdas nutricionais
Congelar porções de Alimentação Natural (AN) por até cerca de dois meses a -18 °C — temperatura típica de freezer doméstico — em recipientes bem vedados preserva bem a maioria dos nutrientes. Mas podem ocorrer pequenas perdas, sobretudo de vitamina C e as do complexo B. A tiamina (vitamina B1) é uma das mais sensíveis, podendo sofrer redução de cerca de 5% a 20%, o que geralmente não é relevante em dietas ricas em carnes e vísceras e/ou suplementadas com produtos como Nutroplus ou Food Dog. Alimentos ricos em ômega-3 também podem ter alguma perda ao longo do armazenamento. Já proteínas, aminoácidos e minerais permanecem estáveis.

Adicione ervas
Você sabia que acrescentar ervas ajuda a preservar os nutrientes das porções de AN durante o congelamento? Ervas como alecrim, orégano, tomilho e sálvia — frescas ou desidratadas — são ricas em compostos fenólicos que reduzem a oxidação de gorduras, protegendo ácidos graxos como os ômega-3 e contribuindo para a preservação da vitamina E. Basta um pouquinho, em torno de até 0,5% da dieta, sempre bem distribuídas. Logo, a uma porção com 300g de alimento, posso adicionar entre 0,5g a 1,5g de ervinhas frescas ou desidratadas.
Congelamento ideal
O ideal é promover um congelamento rápido, pois isso forma cristais de gelo menores, preserva melhor a textura da comida, reduz a perda de água no descongelamento e interrompe mais rapidamente a multiplicação bacteriana. Para isso, acondicione a AN em porções menores — idealmente até 500 g ou menos — e distribua no freezer de forma que o ar circule bem entre elas. Certifique-se de que o espaço esteja limpo e sem acúmulo de gelo, e ajuste para a temperatura mais baixa possível. Evite abrir o freezer nas primeiras 12 a 24 horas para não comprometer o processo.
Descongelamento ideal
O descongelamento deve ser gradual, e não abrupto, pois variações rápidas de temperatura aumentam a liberação de água e a perda de nutrientes. Descongele na prateleira inferior da geladeira, o que pode levar cerca de 24 a 36 horas, dependendo do tamanho da porção. Se necessário, o alimento pode ficar fora da geladeira por até 2 horas no máximo, mas tenha cuidado ao fazer isso com dietas cruas, pois intensifica a proliferação bacteriana. Em um aperto, use banho-maria ou microondas em recipiente de vidro. Lembre-se que se houver ossos na dieta eles não devem ser aquecidos. Ah! E você pode, sim, servir a aguinha que desprende no congelamento; é cheia de nutrientes.

Tiamina e tiaminase
Na Alimentação Natural crua, é importante considerar a ação da tiaminase, uma enzima presente em peixes como manjuba e sardinha quando cruas. Ela degrada a tiamina (vitamina B1), o que se torna relevante quando esses peixes são congelados triturados e misturados a outros alimentos, pois a enzima entra em contato com a tiamina presente nas carnes, vísceras e até no suplemento da dieta. Por outro lado, o risco é mínimo quando o peixe é congelado em um pedaço inteiro, e torna-se inexistente quando o peixe é cozido, já que o calor inativa a tiaminase.
Congelamento profilático
O congelamento profilático é uma conduta que reduz o risco de transmissão de patógenos nas dietas com carnes cruas. Ele diminui significativamente a probabilidade de transmissão de parasitos como Toxoplasma, tênia e Anisakis. Carnes e vísceras bovinas cruas devem ser congeladas por no mínimo três dias (ideal dez dias); suínas, por vinte dias; aves, por dois a três dias; e peixes, por sete dias, considerando freezers domésticos que atingem –18 ºC, antes de serem oferecidas a pets imunocompetentes. Essa medida é eficaz contra parasitos, mas não contra bactérias. Congelar interrompe a multiplicação de bactérias, mas não as destrói.
Referências sobre o congelamento profilático
- CDC — Preventing Toxoplasmosis https://www.cdc.gov/toxoplasmosis/prevention/index.html
- CDC — How to Prevent Trichinellosis https://www.cdc.gov/trichinellosis/prevention/index.html
- CDC — Anisakiasis (informações gerais e prevenção) https://www.cdc.gov/anisakiasis/about/index.html
- BioMed Central — artigo sobre Taenia saginata https://parasitesandvectors.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13071-016-1362-3
- Taylor & Francis — revisão sobre inativação de parasitas por congelamento https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/20477724.2018.1514137

Congelo os suplementos?
A maioria dos suplementos e complementos resiste bem ao congelamento, misturados com a porção diária de alimento: óleo de linhaça, óleo de girassol, óleo de chia, azeite de oliva, óleo de côco, fibras, sementes, óleo de peixe quando em cápsula íntegra (não fure a cápsula e não congele óleo de peixe líquido) e o suplemento vitamínico-mineral comercial (Food Dog, Nutroplus ou similar). Ao adicionar óleos e suplementos evite empregar calor no descongelamento e antes de servir, para preservar esses nutrientes. Não congele fórmulas nutracêuticas, probiótico e suplemento vitamínico-mineral manipulado em cápsulas.
E depois de descongelar?
O alimento cozido pode ficar até três dias em geladeira, em recipiente tampado. Em se tratando de alimento cru, recomendo deixar em geladeira por até dois dias.
Aprenda mais
Além de congelar e descongelar corretamente as porções, é importante também saber o preparo adequado e o correto balanceamento das refeições de Alimentação Natural.
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Sylvia Angélico
Médica Veterinária
pós-graduada em Nutrição Animal
CRMV-SP 29945
Comunicado Cachorro Verde
As informações divulgadas em nossas postagens possuem caráter exclusivamente educativo e não substituem as recomendações do médico-veterinário do seu cão ou gato. Por questões ético-profissionais, a Dra. Sylvia Angélico não pode responder certas dúvidas específicas sobre questões médicas do seu animal ou fazer recomendações para seu pet fora do âmbito de uma consulta personalizada. Protocolos de tratamento devem sempre ser elaborados e acompanhados pelo médico-veterinário de sua confiança.
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