Pense em um comportamento difícil de eliminar: a coprofagia, ou seja, o ato de comer fezes. Muito comum em cães e ainda pouco estudada, pode envolver o consumo do próprio cocô — autocoprofagia — ou das fezes de outros animais — alocoprofagia. Diversos fatores, tanto comportamentais quanto físicos, podem estar por trás desse hábito. Mas é importante lembrar: por mais repugnante que nos pareça, trata-se de um comportamento natural da espécie. Cães são coprófagos, assim como outros canídeos.

Um estudo escocês (Waggershauser et al., 2022) encontrou DNA de cães domésticos no cocô de raposas-vermelhas. Não, as raposinhas não estavam atacando e devorando cães — estavam se alimentando de suas fezes. Isso ocorre em períodos de escassez de presas, já que o cocô canino possui valor calórico significativo e pode servir como fonte alternativa de alimento. O mesmo acontece com coiotes, que no inverno recorrem às fezes de cães.

Nas mamães canídeas (e felinas), a coprofagia tem papel essencial para a sobrevivência da ninhada. Ao lamberem a região anogenital dos filhotes para estimular o xixi e o cocô — ingerindo as caquinhas nesse processo — elas eliminam odores que atraem predadores e reduzem o risco de proliferação de parasitas e doenças.

Quem já levou o cachorro para uma fazenda sabe: eles adoram rolar na bost – opa, no cocô – de vacas e cavalos e comer as bolotinhas das cabras, carneiros e coelhos. Isso acontece porque as fezes de herbívoros são ricas em nutrientes parcialmente digeridos, como fibras fermentáveis, proteínas microbianas, minerais, microrganismos benéficos e ácidos graxos voláteis. Não é um comportamento patológico, ligado a uma doença ou transtorno, mas sim oportunista e suplementar.

Já convivi com um Sheltie e uma salsichinha que passaram por uma fase de autocoprofagia — felizmente superada com a maturidade. E, como sempre tive gatos junto com cães, aprendi cedo a manter a caixa de areia fora do alcance da cachorrada: a maioria deles não resiste ao “número 2” dos felinos.

Deslize as imagens deste carrossel e descubra os motivos por trás da coprofagia – e o que fazer a respeito. Spoiler – vai muito além de colocar mamão ou abacaxi na comida do cachorro.

Predisposição genética

Algumas raças, como Pug, Shih Tzu e Sheltie, parecem ser mais propensas à coprofagia. Ainda não se sabe exatamente o motivo, mas um estudo (Hart et al., 2018) sugere que cães com maior impulsividade alimentar — aqueles que comem rápido demais e sem muita seletividade — podem considerar fezes frescas como comestíveis. Esse comportamento costuma aparecer principalmente em filhotes dessas e de outras raças.

Maneira de chamar sua atenção

É importante ter cuidado com a forma como você reage ao flagrar o cão “com a boca na botija”. Mesmo uma resposta negativa pode servir de reforço e estimular ainda mais a coprofagia. A melhor estratégia é lidar com a situação de forma neutra, sem broncas, lembrando que, apesar de indesejável para nós, esse é um comportamento natural da espécie.

Comportamento aprendido

Filhotes e cães que vivem em grupo podem aprender a comer fezes simplesmente observando outros fazendo o mesmo. Por isso, é comum que cães vindos de canis ou abrigos apresentem coprofagia. Nesse contexto, o hábito pode estar relacionado à tentativa de manter o ambiente limpo ou a fatores como estresse, tédio ou fome.

Higiene

Cães, em geral, preferem fazer cocô longe de onde permanecem — um instinto ancestral que ajuda a reduzir o risco de doenças. Porém, quando confinados em espaços pequenos, como baias, acabam usando o mesmo local para viver e fazer suas necessidades. Nesses casos, podem ingerir as próprias fezes para manter o ambiente limpo, e o comportamento pode persistir mesmo após a mudança para um espaço maior.

Ansiedade, tédio e estresse

Ambientes pobres em estímulos, longos períodos de solidão, falta de atividade física ou situações de estresse podem levar à coprofagia. O caminho para prevenir isso passa por oferecer tempo de qualidade ao seu lado, atividades físicas e mentais diárias, sono adequado e enriquecimento ambiental ****— brinquedos, brincadeiras e interações conscientes.

Deficiências nutricionais

Uma dieta desequilibrada, pobre em nutrientes essenciais ou mal suplementada pode levar o cão a buscar nas fezes (ou até em terra e objetos não comestíveis) os elementos que faltam na alimentação. Já observei alguns casos de coprofagia em cães alimentados com dietas caseiras empobrecidas, como a famosa combinação “frango, arroz e cenoura”, sem suplementação.

Problemas digestivos

Esse é um dos fatores mais importantes e frequentes. Doenças inflamatórias intestinais crônicas, síndromes de má absorção, enterites, insuficiência pancreática exócrina e disbiose intestinal podem comprometer o aproveitamento dos nutrientes da dieta, que acabam sendo eliminados intactos ou parcialmente digeridos nas fezes. Isso desperta o interesse do cão em consumi-las para tentar reabsorver esses elementos.

Apetite aumentado

Qualquer situação que intensifique o apetite pode favorecer a coprofagia: redução excessiva das porções, emagrecimento rápido, dietas com pouca gordura ou proteína, aumento da atividade física sem ajuste alimentar, chegada do clima frio, uso de medicamentos como corticoides e fenobarbital, além de doenças como hipercortisolismo (síndrome de Cushing) e diabetes mellitus.

Verminose

Ao contrário do que muitas pessoas acreditam — inclusive alguns veterinários —, parasitoses intestinais não costumam ser a principal causa da coprofagia. Ainda assim, sempre vale a pena investigar com exame coproparasitológico em amostras colhidas em dias alternados e sorologia para giárdia. Se houver resultado positivo, deve-se iniciar o tratamento adequado.

O que fazer?

Um estudo com mais de 1.400 cães (Hart et al., 2018) mostrou que produtos comercializados para inibir a coprofagia têm eficácia baixíssima. Na prática, observo algum resultado com o uso de nutracêuticos como yucca, tiamina, bromelina, FOS e MOS, mas sempre reforço o que realmente faz diferença: alimentação equilibrada, atividade física e mental diária, investigação (e tratamento) de causas digestivas, redução do estresse e monitoramento do horário do cocô — afinal, as fezes frescas, de até 48 horas, são as mais visadas pelos cães.

Sylvia Angélico
Médica Veterinária
pós-graduada em Nutrição Animal
CRMV-SP 29945

Comunicado Cachorro Verde

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