Me considero uma veterinária atuante em medicina integrativa. Isso não significa rejeitar os recursos da medicina convencional — como antibióticos, anti-inflamatórios e vacinas —, mas sim usá-los com critério, sem banalizar. Gosto de refletir, em cada decisão terapêutica, sobre os benefícios e também as possíveis consequências daquela escolha, tendo em mente o princípio “em primeiro lugar, não causar dano”.

Como não atuo em emergências, e sim como nutróloga pró-ativa, essa abordagem se torna viável. Tenho ainda a sorte de atender tutoras que valorizam e até preferem alternativas naturais.

Nesses quase 15 anos de prática, embora minha especialidade seja a nutrição clínica, venho estudando medicina nutracêutica e fitoterapia ocidental e tenho noções básicas de homeopatia. São conhecimentos que ampliam meu repertório terapêutico e me ajudam a atuar de forma complementar na prevenção e no manejo de quadros digestivos, ortopédicos, dermatológicos, cognitivos e neurológicos, dentre tantos outros.

Diante de um cão com dermatite úmida aguda (“hot spot”), por exemplo, minha primeira escolha costuma ser uma boa limpeza e debridamento da lesão, com aplicação tópica de extrato de própolis não alcoólico — evitando o uso sistêmico de antibiótico e protegendo o microbioma e o estômago do paciente. Quer mais um motivo bacana? Diversas bactérias causadoras ou pioradoras de lesões cutâneas, como a Staphylococcus aureus, continuam sendo suscetíveis ao própolis.

Também costumo preferir medidas como chás digestivos, argilas, simbióticos e uso estratégico de fibras para aliviar episódios gastrintestinais, reservando o uso de medicamentos convencionais para quando são realmente necessários. Hoje já existem evidências científicas robustas de que probióticos e nutracêuticos podem controlar diarreias com a mesma eficácia de antimicrobianos como o metronidazol, mas sem o prejuízo devastador dele ao microbioma intestinal.

Confira abaixo alguns alimentos que costumo usar para aliviar sintomas leves e comuns nos nossos peludos. E lembre-se: se não houver melhora, ou se houver piora, procure sua veterinária de confiança. Bom senso é sempre parte do cuidado.

Constipação

A oferta de inhame sem casca, abóbora moranga (mas não a cabotiá) e quiabo (com a baba!) – sempre cozidos – ajuda em episódios de fezes ressecadas. Adicione um deles (ou um mix de dois ou dos três) como 10% do total de alimento servido por dia. Também é importante garantir que seu cão ou gato esteja bem hidratado e promover exercício físico diário.

Cocô mole/com muco

As causas são diversas – verminose, intolerância a um novo alimento, estresse – mas pode ser falta de fibras solúveis. Experimente adicionar a fibra psyllium, vendida em lojas de produtos naturais, como 1% do total diário de alimentos. A Zuri, minha cachorrinha, come 300g de Alimentação Natural por dia, com 3g de fibra psyllium (1g por refeição). A psyllium também ajuda em quadro de inflamação das glândulas adanais, quando o peludo vive esfregando o bumbum no chão.

Cinetose

Alguns cães sentem enjoo ou náusea ao andar de carro. Isso pode ser trabalhado com dessensibilização gradual — faça passeios curtos e agradáveis até locais que ele goste, e evite oferecer refeições antes da viagem. Para dar uma forcinha, você pode usar gengibre. Seus compostos ativos, os gingerol e shogaol, atuam no sistema nervoso central, ajudando a reduzir a náusea e inibir o reflexo do vômito.

Gengibre fresco ralado na hora:

  • Cães até 5 kg: ¼ de colher de café
  • 6 a 15 kg: ¼ de colher de chá
  • 16 a 25 kg: ⅓ de colher de chá
  • Acima de 25 kg: ½ a 1 colher de chá

Ofereça de 30 a 60 minutos antes do passeio, envolto em uma bolinha de carne.

Chá de gengibre (resfriado e sem açúcar):

  • Ofereça 1 a 2 ml de chá, para cada 1 kg de peso corporal
  • Use uma seringa e administre na lateral da boca

Pelagem seca e opaca

Há muitos anos percebi que cães e gatos que consumiam um pouco de óleo de côco regularmente apresentam pelagem muito brilhante e macia. Faz sentido; esse alimento é rico em triglicerídeos de cadeia média (TCMs) que ajudam a manter a integridade da pele, reduzindo ressecamento, descamação e inflamação, além de inibirem a proliferação de bactérias, fungos e leveduras (como a Malassezia). Sugiro inclui-lo como 1% a 1,5% do total de alimento. A Zuri recebe 1/2 colher de chá (3ml) de óleo de côco no seu total diário de 300g de dieta natural.

Produção excessiva de cerúmen

Alguns cães naturalmente produzem uma quantidade enorme de cerúmen auricular. Uma maneira natural de higienizar esses ouvidos e ajudar a prevenir otites é usando chá verde (Camellia sinensis), que tem leve ação antimicrobiana, antiinflamatória, adestringente (equilibra a oleosidade) e desodorizante.

Prepare o chá:

  • 1 sachê ou 1 colher de chá de folhas secas para 100 ml de água filtrada.
  • Deixe em infusão por 10 minutos, coe bem e deixe esfriar.

Modo de aplicação:

  • Umedeça um algodão limpo ou gaze no chá.
  • 1-2x por semana, limpe suavemente apenas a parte visível da orelha (não introduza líquido diretamente no canal auditivo).

Importante: não use se houver suspeita de perfuração do tímpano ou como tratamento para otite ativa, quando o ouvido está inchado, com pus, vermelho, dolorido ou muito sensível etc.

Gases

hortelã (Mentha spp.) pode ser uma aliada suave e segura no combate aos gases intestinais em cães e gatos. Seu efeito carminativo ajuda a relaxar os músculos do trato gastrointestinal e a expulsar o excesso de gases, além de otimizar os processos digestivos.

Chá de hortelã

  • Prepare uma infusão com 1 colher de chá de folhas frescas ou secas para cada 100 ml de água quente.
  • Deixe em infusão por 5 a 10 minutos, coe bem e espere esfriar.
  • Administre 1-2ml por kg de peso do cão e apenas 0,5ml por kg de peso do gato, 1 a 2x por dia, com seringa na lateral da boca ou misturado à comida.

Tártaro e doença periodontal

Na natureza, a dieta à base de presas ajuda a prevenir tártaro e doença periodontal nos felinos e canídeos. Além da escovação diária (se seu pet permitir), oferecer regularmente ossos crus recreativos — grandes, com algum tecido mole e sempre sob supervisão — contribui para a limpeza natural dos dentes e gengivas, além de trazer relaxamento e satisfazer a necessidade deles de roer. Veja aqui minhas orientações para uma oferta segura: https://cachorroverde.com.br/recreativos/

Anemia

Em situações em que houver anemia ferropriva – que é a anemia por deficiência de ferro – um alimento valioso de adicionarmos à dieta é o baço bovino. Esse órgão chega a concentrar mais de 7x mais ferro que o fígado bovino, já rico nesse mineral. Basta um pouquinho dele para haver uma contribuição decente. Inclua-o como apenas 5% do total de alimento da dieta natural do pet 3-5x por semana, ou mesmo diariamente durante um período.

Lesões cutâneas

O própolis, considerado o reboco de parede das colméias, é um santo remédio natural para pequenos ferimentos, arranhões, dermatites localizadas e lesões úmidas (como o “hot spot”). Ele promove a regeneração celular, controla infecções superficiais e reduz a inflamação. Aplique 2x ao dia até sarar por completo. Para uso em pets, prefira extrato aquoso ou glicólico e evite o alcoólico, que arde. Teste a tolerância do pet antes aplicando um pouquinho a uma área sadia de pele – é incomum, mas há animais sensíveis ao própolis.

Contraindicações

  • Gengibre: cardiopatas e pets com gastrite.
  • Ossos: cães com dentes sensíveis, que histórico de fraturas.
  • Óleo de côco: cães com pancreatite ativa e/ou dislipidemia (aumento das taxas de gordura no sangue).
  • Baço bovino: cães e gatos com sensibilidade ou intolerância a carne bovina ou a vísceras.
  • Própolis: pets alérgicos a própolis.

Sylvia Angélico
Médica Veterinária
pós-graduada em Nutrição Animal
CRMV-SP 29945

Comunicado Cachorro Verde

As informações divulgadas em nossas postagens possuem caráter exclusivamente educativo e não substituem as recomendações do médico-veterinário do seu cão ou gato. Por questões ético-profissionais, a Dra. Sylvia Angélico não pode responder certas dúvidas específicas sobre questões médicas do seu animal ou fazer recomendações para seu pet fora do âmbito de uma consulta personalizada. Protocolos de tratamento devem sempre ser elaborados e acompanhados pelo médico-veterinário de sua confiança.

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