A chamada vitamina D é, na verdade, um pró-hormônio que, após ser metabolizado pelo organismo, dá origem a um hormônio ativo. Seus receptores estão presentes em praticamente todos os tecidos do corpo, o que explica por que seus efeitos vão muito além do metabolismo de cálcio e fósforo e da prevenção do raquitismo, como se ensinava décadas atrás.

Sim, a vitamina D é fundamental para a saúde óssea e dentária, pois participa da absorção intestinal de cálcio e fósforo. Mas ela também exerce um papel importante na modulação do sistema imunológico, ajudando a manter o equilíbrio entre respostas de defesa eficientes e reações inflamatórias excessivas.
Em cães e gatos, a insuficiência de vitamina D tem sido associada a diversas doenças crônicas, incluindo enteropatias, doença renal, câncer, doenças cardiovasculares, condições autoimunes e atopia. As enteropatias estão entre as condições mais estudadas nesse contexto. A vitamina D participa da integridade da mucosa intestinal, da resposta imunológica local e da interação do organismo com a microbiota intestinal.
A importância da vitamina D já é familiar para muitas pessoas, já que ela recebe grande atenção na medicina humana. Muita gente, eu incluída, fazem uso de suplementação.
Mas, voltando aos nossos peludos: quando suplementar, por quanto tempo e em qual dosagem? A resposta não é tão simples. Embora a deficiência possa trazer consequências importantes, o excesso de vitamina D também representa riscos. Entre eles estão a hipercalcemia, a mineralização de tecidos moles, alterações renais e o aumento do risco de formação de determinados tipos de cálculos urinários. Inclusive, nos Estados Unidos, vêm ocorrendo recalls de rações devido a concentrações excessivas de vitamina D nas formulações.

Recomendação oficial
Veja abaixo as recomendações de vitamina D estabelecidas pelas principais entidades que definem diretrizes para alimentos comerciais de cães e gatos. Os valores são expressos por 1.000 kcal de alimento, o que corresponde, aproximadamente, a 700 g da nossa AN cozida para cães e 600 g da nossa AN cozida para gatos.

Observações:
• UI = Unidades Internacionais.
• Embora as entidades estabeleçam um limite máximo de vitamina D muito mais elevado para gatos do que para cães, isso não significa que doses tão altas sejam desejáveis ou ideais. Esse valor apenas reflete a maior tolerância dos gatos ao excesso de vitamina D observada em estudos de segurança.
Tem vitamina D na ração?
Sim, todo alimento comercial brasileiro para cães e gatos classificado como sendo completo e balanceado contém pelo menos o mínimo estipulado de vitamina D pela entidade FEDIAF. O mesmo vale para dietas naturais comerciais.
Tem vitamina D no suplemento vitamínico-mineral?
Nos suplementos formulados especificamente para preencherem as lacunas nutricionais da Alimentação Natural caseira, sim, como Food Dog, Nutroplus, Pet Nutre e NutraSaffe.

Que alimentos são fonte de vitamina D?
Teores médios de vitamina D por 100g de alimento de acordo com dados da tabela USDA:
- Sardinha enlatada 193 UI
- Tilápia (san peter) crua 125 UI
- Rim bovino cru 35-50 UI
- Fígado bovino cru 40-60 UI
- Gema de ovo crua 110 UI
- Banha de porco 100 UI
- Cogumelo 150 UI ou mais*
Obs.: cogumelos expostos ao sol, especialmente quando posicionados com o lado dos poros voltado para cima, podem produzir grandes quantidades de vitamina D. No caso do shiitake, uma exposição de cerca de 15 minutos ao sol já pode elevar seu teor para aproximadamente 756 UI/100 g. Os cães aproveitam a vitamina D que os cogumelos fornecem, na forma ergocalciferol, mas os gatos, não. Para eles, a vitamina D precisa estar na forma colecalciferol, presente nos alimentos de origem animal citados acima.
Então, não preciso suplementar?
Se seu cachorro ou gato recebe ração, Alimentação Natural comercial ou Alimentação Natural caseira adequadamente suplementada, pode ser indicado administrar vitamina D3 à parte se um exame de dosagem dessa vitamina mostrar que seu animal tem baixos níveis desse nutriente no sangue. Pode ser interessante avaliar isso, principalmente no caso de pets portadores de doenças as quais a suficiência de vitamina D é importante, como doenças intestinais, cardiopatia, câncer, alergias e quadros auto-imunes.
Escolha metodologias confiáveis
A dosagem de calcidiol (25-hidroxivitamina D), marcador mais confiável do status de vitamina D no sangue de cães e gatos, pode ser feita por diferentes metodologias laboratoriais, mas nem todas têm a mesma precisão. Entre as mais confiáveis estão a LC-MS/MS, considerada padrão-ouro por sua alta especificidade, mas indisponível no Brasil, e os ensaios do tipo PMI (Solid Phase Paramagnetic Microparticle Immunoassay). Métodos como ELISA e alguns imunoensaios automatizados têm custo mais baixo, porém podem apresentar resultados menos confiáveis.

Suplementação e acompanhamento
No caso de ser indicado administrar vitamina D à parte, uma veterinária nutróloga ou clínica-geral com experiência nisso, poderá prescrever um suplemento adequado. É muito importante acompanhar o paciente que recebe suplementação de vitamina D, uma vez que o excesso dela no sangue pode desencadear problemas sérios, como calcificação renal, hiperfosfatemia ou formação de cálculos urinários de cálcio.
Principais pontos
- Dietas comerciais (ração, AN comercial) e suplementos vitamínico-minerais formulados especialmente para dietas caseiras, já fornecem ao menos a dosagem mínima de vitamina D3 – e para muitos pets, isso é o bastante para garantir suficiência.
- Alguns animais, dependendo de capacidade de digestão, assimilação (absorção), status de saúde e composição da dieta, podem requerer dosagens maiores de vitamina D.
- Para avaliar isso e avaliar de maneira confiável solicite a dosagem de calcidiol pela motodologia PMI — ou, dependendo do país onde estiver, LC-MS/MS ou HPLC.
- Não suplemente por conta. Consulte o veterinário experiente nisso e conte com seu acompanhamento.

Referências
- Reynolds LJ et al. (2025/2026)
High analytical variability exists with multiple methods of serum 25-hydroxyvitamin D analysis in dogs
DOI: 10.1177/10406387251401549 - Brodlie H et al. (2023)
Comparison of LC-MS/MS, dried blood spot and rapid assay for 25-hydroxyvitamin D measurement in cats
DOI: 10.1177/10406387231158106 - Hurst EA, Homer NZ, Mellanby RJ (2020)
Vitamin D Metabolism and Profiling in Veterinary Species
DOI: 10.3390/metabo10090371 - Hurst EA et al. (2020)
Development of LC-MS/MS methods for vitamin D metabolites in dogs
DOI: 10.1016/j.jsbmb.2020.105598 - Sharp SJ et al. (2015)
The Effect of Diet on Serum 25-Hydroxyvitamin D Concentrations in Dogs
DOI: 10.1371/journal.pone.0129285 - Mellanby RJ et al. (2011)
Hypovitaminosis D in dogs with inflammatory bowel disease and hypoalbuminemia
DOI: 10.1111/j.1748-5827.2011.01082.x - Mellanby RJ et al. (2017)
Hypovitaminosis D is associated with negative outcome in dogs with protein-losing enteropathy: a retrospective study of 43 dogs
DOI: 10.1186/s12917-017-1022-7
Sylvia Angélico
Médica Veterinária
pós-graduada em Nutrição Animal
CRMV-SP 29945
Comunicado Cachorro Verde
As informações divulgadas em nossas postagens possuem caráter exclusivamente educativo e não substituem as recomendações do médico-veterinário do seu cão ou gato. Por questões ético-profissionais, a Dra. Sylvia Angélico não pode responder certas dúvidas específicas sobre questões médicas do seu animal ou fazer recomendações para seu pet fora do âmbito de uma consulta personalizada. Protocolos de tratamento devem sempre ser elaborados e acompanhados pelo médico-veterinário de sua confiança.
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