A parte I desse post gerou uma repercussão tão bacana no instagram que resolvi trazer uma continuação. 😊

Sou médica-veterinária integrativa, com especialização em Nutrição Animal, e uma das coisas que mais gosto de fazer é questionar condutas que percebo como massificadas. A medicina veterinária está em constante evolução, e muitos temas comportam nuances que nem sempre cabem em respostas simples de “certo” ou “errado”.
A maioria dos tópicos deste post deve ser encarada como um convite à reflexão e à conversa. Sempre que possível, acredito em uma abordagem individualizada, que leve em conta o paciente, sua saúde, seu ambiente, seu estilo de vida e a realidade da família.

Pets sênior e idosos precisam de exercício

Com o envelhecimento, há perda natural de massa muscular (sarcopenia) e desgaste das articulações (artrose). Por isso, nada de deixar o pet velhinho dormindo o dia todo! O movimento ajuda a preservar a musculatura, a mobilidade e a lubrificação das articulações. Respeitando suas limitações, incentive caminhadas, brincadeiras, jogos, natação, hidroesteira ou outras atividades de baixo impacto.

Não recomendo a vacina contra giardíase

O Grupo de Diretrizes de Vacinação da WSAVA, presidido pela veterinária brasileira Profa. Dra. Mary Marcondes, considera a vacinação contra giardíase não recomendada. Segundo a entidade, não há evidências suficientes de que ela previna a infecção ou a eliminação de cistos de giárdia, e cães vacinados ainda podem desenvolver a doença. Não por acaso, essa vacina já deixou de ser disponibilizada em diversos países.

Imunização costumizada é o ideal

Vacinação é fundamental — e, inclusive, precisamos aumentar a cobertura vacinal, imunizando mais indivíduos. Mas cães e gatos não precisam receber todas as vacinas disponíveis todos os anos. Sempre que possível, a imunização deve ser planejada de forma individualizada, considerando fatores como idade, histórico vacinal, estado de saúde, resultado de sorologia vacinal, ambiente e risco de exposição.

Considere repelentes naturais

A utilização constante de produtos convencionais contra pulgas e carrapatos é indispensável em boa parte dos casos, mas não precisa ser a única estratégia. Dependendo do risco de exposição do animal e de sua suscetibilidade individual, com bom senso, repelentes naturais e medidas ambientais podem surtir bom controle desses parasitos. Além disso, evitar o uso desnecessário de antiparasitários convencionais reduz o risco de efeitos adversos e o grande impacto ambiental associado a esses produtos. Confira aqui mais informações sobre alternativas naturais.

Idosos nem sempre precisam de menos proteína

Muita gente acredita que cães e gatos idosos devem consumir menos proteína. Na verdade, eles costumam ter uma necessidade protéica igual ou até maior que a de adultos, devido à redução da capacidade de digestão e absorção, ao aumento das demandas do organismo e à perda de massa muscular relacionada ao envelhecimento. Em casos de doença renal, ajustes podem ser necessários, mas devem ser individualizados.

Prefira ômega-3 de origem animal

Com exceção das algas, que fornecem DHA, sementes e castanhas oferecem ômega-3 na forma de ácido graxo alfa-linolênico (ALA). Estima-se que os cães convertam apenas cerca de 8% dele nas formas ativas EPA e DHA; já os gatos são incapazes de realizar essa conversão. Por isso, prefira fontes animais de EPA e DHA, como sardinha, manjuba, anchova, cavala e bons suplementos de óleo de peixe ou krill.

Adicione sal à dieta

Adicionar um pouco de sal à dieta caseira do pet não só é seguro como importante. O cloreto presente no sal é um mineral essencial, especialmente importante para filhotes, participando da digestão, do equilíbrio eletrolítico e da transmissão de impulsos nervosos. Uma medida segura é adicionar cerca de 1g de sal para cada 1kg de alimento pronto. A principal exceção são animais com cardiopatias congestivas, que necessitam de restrição de sódio.

Seu cão pode ter doença do carrapato sem carrapatos

Muitos responsáveis se surpreendem quando seu cão recebe o diagnóstico de uma doença do carrapato mesmo sem nunca ter encontrado um carrapato nele. Isso pode acontecer porque alguns desses agentes podem ser transmitidos da mãe para os filhotes durante a gestação ou permanecer no organismo por meses — às vezes anos — antes de causar sinais clínicos. Por isso, o diagnóstico de uma doença do carrapato nem sempre significa que a infecção aconteceu recentemente ou na casa onde o animal vive hoje.

O consumo de água reduz com AN

É comum percebermos que o pet começa a beber menos água após a transição para a Alimentação Natural. Mas isso é esperado: cerca de 70% da dieta é composta por água. Como parte da hidratação passa a vir da própria comida, o consumo no pote tende a diminuir, às vezes drasticamente. Para complementar, você pode adicionar um pouco de água às refeições, deixando o alimento úmido, mas não encharcado.

Nossos pets não obtêm vitamina D do sol

Ao contrário do que acontece com a gente, cães e gatos não possuem a atividade enzimática necessária para converter a radiação UV em vitamina D. Eles podem torrar no sol do meio-dia diariamente que ainda assim não serão capazes de obter esse nutriente essencial. Por esse motivo, a vitamina D deve ser fornecida pela alimentação, mais especificamente, pela suplementação.

Certos cocôs atraem os cães

Alguns cocôs são particularmente irresistíveis aos cães, como os de gato, ricos em proteína, e os de herbívoros, como cabras, ovelhas e coelhos, fonte de prebióticos, probióticos, posbióticos e enzimas. Tirando o fato de ser nojento aos nossos olhos, não é anormal que um cachorro queira consumir esses dejetos. A espécie canina é naturalmente coprófaga. Inclusive, uma das teorias para a aproximação dos lobos aos seres humanos, há cerca de 30 mil anos, é o interesse por comer restos alimentares e fezes de humanos 🤢.

Toda AN deve ser suplementada

Por mais variada que seja a dieta que você prepara para seu pet em casa, ela pode ser insuficiente em nutrientes essenciais, como cálcio, manganês, vitaminas E, B2 e D, zinco, iodo, selênio, cloreto e ômega-3 EPA e DHA. Podemos preencher essas lacunas com um suplemento vitamínico-mineral comercial adequado ou solicitar a um veterinário nutrólogo que prescreva um suplemento para ser enviado em farmácia de manipulação ou que oriente sobre a inclusão estratégica de ingredientes específicos à dieta.

Entrou com antibiótico? Junto, dê probiótico

Antibióticos não afetam apenas a bactéria causadora da doença. Eles também podem impactar a microbiota intestinal, um ecossistema repleto de microrganismos fundamentais para a saúde digestiva e sistêmica. Uma forma de reduzir esse impacto é associar um bom probiótico durante o tratamento. Pessoalmente, gosto dos probióticos à base de levedura, como os que contêm Saccharomyces boulardii, por serem resistentes aos antibióticos.

Sylvia Angélico
Médica Veterinária
pós-graduada em Nutrição Animal
CRMV-SP 29945

Comunicado Cachorro Verde

As informações divulgadas em nossas postagens possuem caráter exclusivamente educativo e não substituem as recomendações do médico-veterinário do seu cão ou gato. Por questões ético-profissionais, a Dra. Sylvia Angélico não pode responder certas dúvidas específicas sobre questões médicas do seu animal ou fazer recomendações para seu pet fora do âmbito de uma consulta personalizada. Protocolos de tratamento devem sempre ser elaborados e acompanhados pelo médico-veterinário de sua confiança.

Obrigada por acompanhar os canais do Cachorro Verde!