A urolitíase — a formação de cálculos no trato urinário — pode aparecer por acaso em exames de rotina, como ultrassonografia e radiografia abdominal, realizados em animais sem sintomas, ou ser investigada após sinais como dificuldade para urinar, sangue na urina ou até eliminação de pequenas “pedrinhas”.

Costumo ser especialmente cuidadosa no acompanhamento de raças com maior predisposição à formação de cálculos, como Yorkshire Terrier, Shih Tzu, Lhasa Apso, Schnauzer, Dálmata, Pug e Buldogue Inglês, embora eu venha observando esse quadro também em Spitz Alemão e Biewer Terrier.
Esse é um dos quadros que mais gosto de atender como nutróloga, principalmente aqueles pacientes que chegam “desenganados”, formando novos cálculos mesmo após o uso de rações terapêuticas urinárias. E, se pararmos para pensar, faz pouco sentido tentar prevenir cálculos urinários com uma dieta seca, quando um dos pilares mais importantes do tratamento é justamente manter a urina diluída. Por isso, a Alimentação Natural pode ser uma grande aliada nesses casos, já que é composta por cerca de 70% de umidade.
Outro ponto importante é que muitas rações urinárias possuem altos teores de gordura e carboidratos, o que frequentemente contribui para aumento de colesterol e triglicérides — especialmente em raças que já têm predisposição a um sangue mais “gorduroso”, como Schnauzers, Yorkies e Pugs.
Mas atenção: nem toda Alimentação Natural básica será adequada para um animal formador de cálculos. A dieta precisa ser ajustada ao tipo de urólito encontrado. Os mais comuns são os de estruvita e oxalato de cálcio, mas também existem cálculos de biurato de amônio, cistina, xantina, sílica, carbonato de cálcio e os mistos — formados por dois ou mais substratos.
E tem mais: a dieta é apenas metade do tratamento. A outra metade — igualmente importante — está no manejo diário feito pela responsável. Confira esse artigo para entender melhor os diferentes tipos de cálculos, por que eles se formam e o que pode ser feito para prevenir e controlar essas “pedrinhas” no trato urinário dos cães e gatos.

Onde?
A urolitíase — presença de cálculos no trato urinário — pode acometer diferentes segmentos do sistema urinário: os rins (“nefrólitos”), os ureteres, ductos que levam a urina dos rins até a bexiga (“ureterólitos”), a bexiga (“cistólitos”) e a uretra, canal que conduz a urina da bexiga para fora do corpo (“uretrólitos”). Diferentemente do que acontece em muitos humanos, cujos cálculos vesicais frequentemente se originam nos rins e migram para a bexiga, nos cães e gatos a maioria dos cálculos urinários costuma se formar diretamente na própria bexiga.
Urólitos x cristais
Todo urólito já foi um cristalzinho um dia. Mas nem todo cristal vai evoluir para a formação de um cálculo. É importante ter cautela na avaliação de exames de rotina. Quando a urianálise é realizada sem jejum sólido mínimo de 8h, pode ser considerado normal haver cristais de estruvita, por exemplo,em decorrência da alcalinização urinária transitória que ocorre após as refeições. Da mesma forma, em urina muito concentrada (densidade de 1,040 ou mais) é tolerável a presença de um pouco (1+) de cristais.
A verdade é que a maioria dos animais que apresentam cristais na urina felizmente nunca desenvolverá cálculos urinários. Muitos cães e gatos passam a vida formando e eliminando cristais sem apresentar maiores complicações. Para saber se um animal formador de cristais também possui cálculos, além da urianálise — exame que fornece informações importantes sobre pH, densidade urinária, presença de bactérias, células, cilindros e cristais — é necessário recorrer a exames de imagem, como ultrassonografia abdominal e/ou radiografia, que permitem identificar a presença das “pedrinhas” no trato urinário.
Por que se formam?
Entre as principais causas estão a urina muito concentrada, o hábito de segurar o xixi por muitas horas, infecções urinárias e predisposição genética. Algumas bactérias produtoras de urease, como Staphylococcus spp., alcalinizam a urina e favorecem a precipitação dos componentes da estruvita: magnésio, fosfato e amônio. Certas raças, como Dálmata, Buldogue Inglês, Yorkshire Terrier, Schnauzer, Lhasa Apso, Pug e Shih Tzu, têm maior predisposição à urolitíase. Além disso, dietas desequilibradas, alterações na mucosa da bexiga que facilitam o acúmulo de sedimentos, uso de algumas medicações — como o alopurinol —, doenças metabólicas, como a síndrome de Cushing, disbiose e até a obesidade também podem contribuir para a formação de cálculos.

Estruvita
É o tipo mais comum nos cães, em especial nas cadelas. E o segundo tipo mais prevalente em felinos. Se formam em urina alcalina. Nos caninos, costuma ser consequência de infecção urinária, bastando, em grande parte dos casos, tratar a infecção e diluir e acidificar a urina para que eles dissolvam ao longo de algumas semanas sem necessidade de cirurgia. Em gatos se forma em urina estéril (sem associação com cistite bacteriana), mas alcalina e concentrada – e por isso recomendamos que a dieta felina seja úmida e rica em carne (que naturalmente resulta em um pH levemente mais ácido e desfavorável para estruvita).
Oxalato de cálcio
É atualmente o tipo mais prevalente nos gatos e o segundo mais frequente nos cães. Tendem a se formar em urina ácida e não estão associados à infecção urinária. Vejo bastante em Yorkie, Shih tzu e Lhasa. Acredita-se que a essas raças faltem fatores que inibem a excreção de oxalato e de cálcio na urina. A urina torna-se, então, saturada com oxalato e cálcio, que se encontram e formam cristais que evoluem para urólitos. Infelizmente, não podem ser dissolvidos, nem com medidas alcalinizantes, chá de quebra-pedra, antibióticos, nada. Ou são eliminados naturalmente na micção, o que pode gerar dor e obstrução em machos, considerando sua uretra estreita e longa, ou são removidos cirurgicamente.
O que é oxalato?
O oxalato é uma substância produzida naturalmente pelo organismo e também presente, em quantidades variáveis, nos vegetais, principalmente sob a forma de ácido oxálico. Alimentos ricos nessa substância incluem espinafre, salsa, damasco, quiabo, acelga e soja, mas ela também pode ser encontrada em quantidades moderadas na beterraba, cenoura, inhame e batata-doce. Porém, atenção: esses alimentos não precisam ser evitados por todos os cães e gatos, e sim apenas por aqueles que comprovadamente formam cristais ou cálculos de oxalato de cálcio.

Biurato de amônio
Os cálculos de biurato de amônio se formam a partir de alterações no metabolismo do ácido úrico, geralmente em urina mais ácida. Em cães, são especialmente comuns no Dálmata e Buldogue Inglês, além de pets com desvios portossistêmicos hepáticos (“shunts”), como alguns Yorkies. Tendem a se formar em urina mais ácida a neutra e geralmente não estão associados a infecção urinária. O tratamento envolve aumento da ingestão de água, controle dietético das purinas, alcalinização da urina, e, no caso da causa de base ser shunt portossistêmico, a correção cirúrgica ou o tratamento de controle dessa condição.
O que são purinas?
As purinas são substâncias naturalmente presentes nas células dos animais e vegetais, fazendo parte do DNA. Quando cães e gatos digerem alimentos ricos em purinas, elas são transformadas em compostos que serão eliminados pela urina. O problema é que alguns indivíduos têm dificuldade em metabolizar esses compostos adequadamente, formando então cristais e cálculos urinários, como os de biurato de amônio. Alimentos mais ricos em purinas incluem vísceras, levedura de cerveja, sardinha, anchova e manjuba. Por isso, em cães e gatos formadores desse tipo de cálculo, recomenda-se moderação ou restrição desses alimentos.
Xantina
Os cálculos de xantina são menos comuns e se formam quando há acúmulo de xantina na urina, uma substância produzida pelo metabolismo das purinas. Eles podem ocorrer em cães tratados com alopurinol, medicação comumente prescrita para controle da leishmaniose – sem uma adequada restrição de purinas na dieta. Tendem a se formar em urina mais ácida e não estão associados a infecção urinária. O tratamento envolve aumento da ingestão hídrica, redução de purinas na dieta e revisão da dose ou da necessidade do alopurinol. Como esses cálculos não costumam responder à dissolução dietética, pode ser necessária a remoção cirúrgica quando causam obstrução.

Carbonato de cálcio
Esses também são menos comuns e sua causa ainda é pouco compreendida. Tendem a se formar em urina alcalina e podem estar associados a alterações no metabolismo do cálcio, predisposição individual e fatores dietéticos, como excesso de carbonato de cálcio na dieta. São descritos com maior frequência em cães machos e podem ocorrer isoladamente ou compondo cálculos mistos. Não estão associados a infecção urinária e raramente respondem à dissolução. O tratamento envolve aumento da ingestão hídrica, avaliação criteriosa da dieta e suplementação e, muitas vezes, remoção cirúrgica dos urólitos.
Cistina e sílica
Os urólitos de cistina e sílica são os mais raros. Os cálculos de cistina se formam por uma alteração genética no transporte renal de aminoácidos, levando ao excesso de cistina na urina, geralmente mais ácida. São mais comuns em cães machos da raça Terra Nova e Mastiff e não estão associados a infecção urinária. Já os cálculos de sílica parecem estar relacionados à ingestão crônica de areia e compostos silicatados presentes na dieta, na água, no solo, sendo observados principalmente em regiões litorâneas ou em animais que se alimentam em canteiros de obras. Os cálculos de cistina podem ser dissolvidos com tratamento, mas o de sílica, não.
Urólitos mistos
Esses costumam ser os cálculos mais desafiadores de tratar, porque cada substrato pode exigir medidas terapêuticas diferentes — e, às vezes, até opostas. Um cálculo pode ter núcleo (a porção mais interna) de oxalato de cálcio e camada externa (“casca”) de estruvita. Nesse caso, ao acidificar a urina e tratar a infecção bacteriana associada à estruvita, é possível dissolver a parte externa do cálculo, mas o núcleo de oxalato de cálcio permanecerá ali — e pode até aumentar em urina mais ácida. Por isso, cálculos mistos frequentemente exigem acompanhamento cuidadoso, tanto de uma veterinária nutróloga quanto de uma veterinária urologista.

O papel da responsável
Como você percebeu ao longo desta postagem, manter a urina diluída é um dos pilares mais importantes na prevenção e no controle de qualquer tipo de urolitíase. Ao receber a urianálise do seu pet, atente para o parâmetro “densidade urinária”. Em cães formadores de cristais ou cálculos, busca-se idealmente valores de até 1,020; em gatos, até 1,030. Além disso, cães e gatos predispostos à urolitíase devem ingerir cerca de 60ml de água por kg de peso corporal ao dia e não devem passar muitas horas sem urinar. Cães que vivem em apartamento e fazem xixi apenas na rua, por exemplo, devem sair cerca de 4 a 5 vezes ao dia para esvaziar a bexiga.
Estimulando a ingestão hídrica
Vamos usar como exemplo a minha cachorrinha, Zuri, que pesa 6kg e consome cerca de 300g de Alimentação Natural por dia. Se ela fosse formadora de cálculos urinários, precisaria ingerir aproximadamente 360ml de água diariamente. Como a AN já fornece em torno de 70% de umidade, 210ml de água vêm da dieta. Os 150ml restantes poderiam ser ofertados entre as refeições, na forma de água saborizada com um pouco de iogurte natural ou caldo do cozimento das carnes. Também vale adicionar água diretamente à refeição, deixando-a bem úmida — mas sem encharcar, para evitar desconforto digestivo e refluxo.
Dieta individualizada e monitoramento
Seu cão ou gato foi diagnosticado com cálculos urinários? Busque orientação nutricional individualizada para ajustar a dieta, os suplementos, os petiscos — sim, os petiscos também! — e o manejo ao tipo de cristal ou cálculo presente, conhecido ou presumido. O planejamento terapêutico também faz diferença: será tentada dissolução clínica? remoção cirúrgica? ou apenas monitoramento? A adesão da responsável às orientações nutricionais, ao manejo hídrico, às medicações prescritas, à frequência adequada das micções e aos exames periódicos de acompanhamento é fundamental para reduzir o risco de recidivas.
Nos cursos de Alimentação Natural Terapêutica para cães e Alimentação Natural Terapêutica para gatos abordamos as dietas específicas para cada tipo de cálculo urinário que mencionamos aqui, além de nutracêuticos, suplementos e dicas de manejo clínico para dissolução (quando possível) ou controle de recidivas. Os cursos são exclusivos para médicos-veterinários e o pacote com a inscrição nos dois cursos está com 30% de desconto. Se você é tutora de um pet formador de cristais ou cálculos urinários, envie este post para a sua veterinária.

Importante
Se seu peludo passar pela cirurgia para remover urólitos da bexiga não deixe de solicitar que o veterinário os encaminhe para a análise qualitativa e quantitativa que permite conhecer a composição do cálculo em sua totalidade. Essa informação é de suma importância para orientar o controle mais assertivo do quadro.
Referências
- Lulich et al. ACVIM Small Animal Consensus Recommendations on the Treatment and Prevention of Uroliths in Dogs and Cats, 2016.
- Bartges & Callens. Urolithiasis, 2015.
- Osborne et al. Medical dissolution and prevention of canine and feline uroliths, 1999.
- 2025 iCatCare Consensus Guidelines on the Diagnosis and Management of Lower Urinary Tract Diseases in Cats, 2025.
- Ettinger & Feldman. Textbook of Veterinary Internal Medicine.
- Minnesota Urolith Center — canine and feline urolithiasis publications.
Sylvia Angélico
Médica Veterinária
pós-graduada em Nutrição Animal
CRMV-SP 29945
Comunicado Cachorro Verde
As informações divulgadas em nossas postagens possuem caráter exclusivamente educativo e não substituem as recomendações do médico-veterinário do seu cão ou gato. Por questões ético-profissionais, a Dra. Sylvia Angélico não pode responder certas dúvidas específicas sobre questões médicas do seu animal ou fazer recomendações para seu pet fora do âmbito de uma consulta personalizada. Protocolos de tratamento devem sempre ser elaborados e acompanhados pelo médico-veterinário de sua confiança.
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