Recentemente postei nos stories do instagram uma série de fotos e vídeos de um episódio tão inesquecível e emocionante que vivi que decidi eternizar trazendo aqui para o blog. Então, interrompendo brevemente a programação de postagens sobre saúde de cães e gatos, quero dividir com vocês a história de uma égua.

Sempre gostei muito de cavalos, além de cães e gatos. Quando eu tinha 17 anos conheci uma égua na represa de Guarapiranga, aqui em São Paulo, que era alugada para passeios. Ela estava magra, a pelagem castanha era áspera e ela era arisca. Era delicada de estrutura, lembrava um cavalo árabe. Fiquei obcecada por ela. Ofereci um dinheiro que eu tinha guardado – uns R$ 500 – e num impulso eu era responsável por uma égua, um animal de 500kg, com necessidades bem distintas de um cachorro ou gato. A chamei de Phoenix. Ela tinha por volta de 8 anos, idade em que um cavalo está no auge.

Só depois de comprar um cavalo é que contei aos meus pais, divorciados. Phoenix foi transportada para um centro hípico próximo à capital e lá passou a ser bem alimentada, beber água sempre que tinha vontade, e até demonstrou levar jeito para equitação clássica – cheguei a fazer um tempo de aulas com ela. Ficou linda! Foi aprendendo a confiar, apesar de manter reflexos de cavalos que já apanharam muito.

Consegui mantê-la por cerca de um ano. Minha mãe havia operado dois anos antes de um enorme meningioma no cérebro e nessa época descobrimos alguns novos tumores. Morávamos só eu e ela – e passou a ficar difícil manter a Phoenix.

Por sorte, conheci a Cris, uma protetora de animais que se interessou por assumir a égua. Isso foi em 2000. Phoenix continuou sendo muito bem cuidada e paparicada, ganhando carinhos, cenouras e maçãs da Cris durante suas visitas. Praticamente deixou de ser montada. Durante algum tempo a Cris e eu mantivemos contato, eu recebia fotos e notícias da Phoenix, e os anos foram passando. Décadas se passaram.

Recentemente, a Cris entrou em contato comigo. Eu esperava uma notícia triste, afinal, se passaram 26 anos que confiei Phoenix aos seus cuidados. Para minha supresa, nossa eguinha castanha completou prováveis 34 anos – uma idade muito avançada para um cavalo.

E então fui ao seu encontro. Na verdade, reencontro. Cada minuto foi um presente, como uma segunda chance dessas que só existem em obras de ficção. Como reencontrar alguém que mudou o seu rumo quando você nem sabia quem era ainda. Como reencontrar um cachorro ou gato da infância, décadas depois. Quando eu a conheci, eu era uma garota e ela era uma adulta no seu ápice. A revi, eu adulta, ela centenária.

Percorrendo as cocheiras com minha querida amiga Emi reconheci a Phoenix instantaneamente, sem nem precisar ler a placa na sua baia. Pelo seu cheiro, pelo seu formato. Ali estava uma égua bem senhorinha, de patas levemente entortadas, grisalha e magra – desta vez pela idade. Me encarou desconfiada, mas interessada. Tiramos a Phoenix da baia e a levamos para o gramado ao sol. Nesse momento, senti que ela me reconheceu. Simplesmente porque permitiu minha aproximação e carinhos repetidamente em sua face e pescoço. Estamos falando de uma égua desconfiada e até um pouco ranheta, pouco afeita a arroubos de afeição.

Phoenix sempre teve uma saúde excepcional. Nunca teve cólica. Agora está enfrentando o desgaste esperado por ter uma idade que equivaleria a algo entre 90-100 anos de um humano. Deterioração articular, apetite irregular, perda de massa muscular, e um dente infeccionado que se revelou a causa de uma sinusite. Conheci o veterinário responsável pelo centro onde ela está há 16 anos, um homem carinhoso com ela, experiente e despretensioso. Phoenix também tem sido acompanhada por uma veterinária da área de reabilitação equina, a @tempestaavet o que tem melhorado suas dores e mobilidade.

Já quero voltar para reencontrá-la novamente. Quero, mais uma vez, estar na vida dela. Que presente, lá atrás a gente ter encontrado a Cris. E que presente ter podido reencontrar a Phoenix.