Uma das coisas que mais me enchem de orgulho nesses 15 anos de atuação em nutrição clínica é acompanhar meus primeiros pacientes já velhinhos, com 13, 14, 15, 16 anos — alguns até mais idosos que isso.

Existe algo de mágico nisso. É um verdadeiro privilégio poder acompanhar a vida inteira de um animal: vê-lo sair da fase de filhote ou jovem e chegar aos seus anos finais. E é também nesses momentos que percebo, de forma muito concreta, a potência da Alimentação Natural. Para tantos peludos — inclusive muitos com os quais tive a sorte de coexistir — ela se consolidou como um recurso valioso de promoção de bem-estar, saúde e longevidade.
Ao acompanhar tantos pets idosos (uma amiga querida até já me sugeriu buscar uma especialização em geriatria), ficam cada vez mais evidentes os desafios que essa fase da vida traz.
Mesmo um cão ou gato que tenha sido saudável durante toda, ou quase toda, inevitavelmente apresentará algum “desgaste de pecinhas” com o avançar da idade. Não há como escapar da ação do tempo.
Deterioração articular, perda muscular, declínio cognitivo, imunidade mais fragilizada (e, com isso, maior suscetibilidade ao câncer), disbiose, desequilíbrios hormonais, cardiopatias e perda progressiva da função renal estão entre as demandas mais frequentes.
Nessa etapa, o foco muitas vezes deixa de ser resolução e passa a ser manejo. Escolha de batalhas. Promoção de conforto e bem-estar. Um necessário realinhamento de expectativas.
Na melhor das hipóteses, nossos peludos vivem vidas longas e proveitosas, sem grandes debilidades ou necessidade de intervenções importantes, até finalmente envelhecerem — o que varia entre cães e gatos e, no caso dos cães, também entre portes.
E então surgem os quadros crônicos da “alta quilometragem rodada”. Eles vivem mais um pouco, e partem. Lembro com um misto de gratidão e saudade que os melhores anos da Polly — e de tantos outros companheiros animais que fizeram parte da minha vida — foram justamente os anos sênior. Aquela fase da Polly entre os 9 e os 14 anos, em que sua saúde estava estável, sua cognição preservada e o nosso entrosamento parecia quase telepático.
De forma geral, esses 15 anos de atuação profissional, somados a mais de 30 anos de convivência com cães e gatos, me ensinaram que as escolhas cotidianas têm impacto direto no estado em que nossos pets chegarão à velhice.
Confira o post abaixo para conhecer as recomendações que considero valiosas para você começar a colocar em prática, especialmente com cães a partir dos 7 anos e gatos a partir dos 11. E se o seu peludo já é idoso, sem problemas: sempre é tempo de cuidar ainda melhor dele.

1- Hidratação
A doença renal crônica é muito frequente em cães e gatos idosos. Isso acontece porque nossos pets possuem menos néfrons (as células funcionais dos rins) do que nós. Uma das principais formas de prevenir ou retardar o desgaste renal é manter uma hidratação adequada.
Para ambas as espécies, dietas úmidas — como a Alimentação Natural — são mais recomendadas. Certifique-se de que seu peludo ingira cerca de 50 ml de água por quilo de peso corporal ao dia. Mas, se ele recebe dieta úmida, lembre-se de considerar que aproximadamente 70% do peso da refeição servida já é água.
2- Mantenha o cognitivo ativo
Estimule seu gato a “caçar” a própria refeição e reserve alguns minutos por dia para brincar com ele. Com seu cão, varie os trajetos dos passeios, invista em enriquecimento ambiental e continue ensinando ou praticando comandos.
Na fase sênior, vale buscar acompanhamento com uma veterinária integrativa para discutir estratégias de preservação cognitiva, como canabinoides — que também podem auxiliar no controle da dor — e nutracêuticos. Tenho ótimas experiências com ativos como Bacopa monnieri, juba-de-leão e ashwagandha.
3- Ajustes na dieta
Cada pet idoso pode precisar de ajustes específicos, dependendo da presença de doenças crônicas. Mas, de forma geral, quando a função renal está preservada, costuma ser interessante uma dieta:
- rica em carnes magras
- moderada em gordura
- rica em ômega-3 (EPA e DHA)
- variada em vegetais coloridos
- adequada em fibras
Essa combinação favorece o aporte de fitoquímicos e antioxidantes, ajuda a manter a microbiota intestinal saudável e contribui para um bom trânsito intestinal.
No livro “Receitas de Alimentação Natural para cães e gatos” você encontra diversas opções de refeições balanceadas e específicas para cães na fase sênior.

4- Adapte a casa
A artrose é uma consequência comum do envelhecimento. Pequenas adaptações fazem enorme diferença no conforto do pet idoso. Mantenha caixas sanitárias e tigelas facilmente acessíveis para os gatos. Para cães, passadeiras ou placas de EVA evitam escorregões. Mantenha as unhas sempre aparadas. Servir as refeições levemente aquecidas aumenta a aceitação e facilita a digestão. Se seu pet recebe AN crua com ossos, observe se ele ainda se sente confortável mastigando pedaços maiores ou se a versão triturada seria mais adequada.
5- Monitore o coração
Além da auscultação cardíaca periódica, recomendo o ecodopplercardiograma anual em pets idosos.
Esse exame permite identificar alterações valvares, relativamente comuns nessa fase da vida, e também detectar tumores cardíacos que podem permanecer assintomáticos por muito tempo, como quimiodectomas (paragangliomas), mais observados em buldogues ingleses, e hemangiossarcomas cardíacos, relativamente frequentes em goldens mais velhos.
6- Enzimas digestivas
Muitos colegas estranham quando prescrevo enzimas digestivas, como pancreatina e bromelina, para animais sem insuficiência pancreática exócrina. Mas elas podem ser úteis sempre que há redução da capacidade digestiva. Com o envelhecimento, a produção de suco gástrico e enzimas digestivas tende a diminuir, favorecendo má digestão e disbiose intestinal. Esses recursos podem otimizar a digestão, reduzir gases e desconforto abdominal e melhorar o aproveitamento dos nutrientes. Converse com uma veterinária integrativa sobre essa possibilidade.

7- Manutenção da massa magra
O envelhecimento, somado ao fato de muitos cães serem castrados, favorece a sarcopenia, a perda progressiva de massa muscular. Isso aumenta a instabilidade articular, gera dor, reduz a disposição para se movimentar e cria um ciclo que acelera ainda mais a perda muscular.
Além dos passeios e brincadeiras diárias, considere estratégias específicas de fortalecimento, como fisioterapia e hidroesteira. Quanto mais massa muscular seu pet conseguir preservar, melhor será sua qualidade de vida.
8- Habitue-o à escovação de dentes
Com gatos pode ser mais desafiador, mas vale insistir com paciência. Cães e gatos idosos têm maior tendência à doença periodontal, em parte por mudanças naturais da microbiota oral. O cuidado diário com os dentes pode retardar — ou até evitar — a necessidade de limpeza sob anestesia geral, além de prevenir danos silenciosos a órgãos como rins e coração.
9- Escore corporal adequado
Quer prevenir diversas doenças sem gastar nada? Mantenha seu pet no peso adequado. Esse cuidado reduz significativamente o risco de diabetes mellitus, pancreatite, artrose, hipertensão, lipidose hepática (em gatos), cistite, alterações biliares e até alguns tipos de câncer. Além disso, garante melhor mobilidade, conforto e capacidade respiratória.

10- Suporte aos órgãos de destoxificação
Vivemos em um ambiente cada vez mais carregado de poluentes e compostos químicos. Embora o organismo tenha mecanismos naturais para lidar com essas substâncias, sua eficiência tende a diminuir com a idade.
Vale conversar com uma veterinária integrativa sobre estratégias periódicas de suporte a órgãos como fígado e rins. Compostos como clorela, dente-de-leão, glicina e N-acetilcisteína, além de alimentos como brotos, crucíferas e cogumelos comestíveis cozidos, podem auxiliar esses processos.
Sylvia Angélico
Médica Veterinária
pós-graduada em Nutrição Animal
CRMV-SP 29945
Comunicado Cachorro Verde
As informações divulgadas em nossas postagens possuem caráter exclusivamente educativo e não substituem as recomendações do médico-veterinário do seu cão ou gato. Por questões ético-profissionais, a Dra. Sylvia Angélico não pode responder certas dúvidas específicas sobre questões médicas do seu animal ou fazer recomendações para seu pet fora do âmbito de uma consulta personalizada. Protocolos de tratamento devem sempre ser elaborados e acompanhados pelo médico-veterinário de sua confiança.
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