Essa costumava ser uma condição mais comum em pets sênior e geriátricos. Mas, nos últimos anos, tenho observado esse quadro com frequência crescente também em cães jovens — de 2, 3, 4 anos — especialmente em algumas raças, como Golden Retriever, Beagle, Border Collie e Pastor Australiano.

O cenário costuma ser assim: o cão está aparentemente saudável, sem sintomas evidentes, faz um check-up de rotina e… surgem achados inesperados. Alterações nos rins à ultrassonografia, perda de proteína na urina, baixa capacidade de concentrar a urina (densidade urinária de 1,018 ou menor) e/ou elevação da creatinina.

O diagnóstico de Doença Renal Crônica (DRC) em cães e gatos segue as diretrizes da International Renal Interest Society, que classifica a doença em quatro estágios (1 a 4). Essa classificação leva em conta a creatinina, a pressão arterial, o SDMA (um marcador precoce de lesão renal), a relação proteína:creatinina urinária (RPC/PU:CU) e os achados de imagem dos rins.

No estágio 1, o pet não apresenta sintomas e a creatinina ainda está dentro do normal (até 1,4 no cão e 1,6 no gato). Porém, o SDMA pode já estar discretamente elevado (acima de 14). Pode haver proteinúria leve (RPC > 0,5 em cães e > 0,2 em gatos), urina inadequadamente diluída e alterações na ultrassonografia. A pressão arterial pode estar normal ou elevada.

Já no estágio 2, a creatinina começa a subir (1,4 a 2,0 em cães e 1,6 a 2,8 em gatos). O animal ainda pode estar assintomático ou apresentar sinais sutis, como aumento da ingestão de água ou inapetência leve. O SDMA geralmente fica entre 18 e 25, e pode haver proteinúria e/ou hipertensão.

A boa notícia é que há muito o que fazer nesses estágios iniciais. A DRC não tem cura, mas é possível retardar significativamente sua progressão — e isso faz toda a diferença na qualidade e no tempo de vida do paciente. E aqui entra um ponto fundamental: o tutor tem um papel central nesse processo.

Quer entender como agir nessa fase e fazer a diferença de verdade? Confira o post abaixo.

Poupe os rins

Os rins são afetados por infecções, processos inflamatórios – um bom exemplo é a doença periodontal – por alterações em outros órgãos (disbiose, hepatopatias, cardiopatias), por uso de fármacos como os popularmente prescritos antiinflamatórios não-esteroidais (meloxican, carprofeno, firocoxib), antibióticos como a gentamicina, além do estado de sub-hidratação crônica. (Percebeu que não mencionei “proteína”? Falarei sobre isso a seguir.)

Hidratação

Esse ponto é crucial. Seu gato ou cão deve ingerir cerca de 50ml por kg de peso por dia. Isso equivale a 300ml para minha cachorrinha, Zuri, de 6kg. Mas considere que Alimentação Natural (AN) caseira e ração úmida contêm pelo menos 70% de água. Ou seja, se a Zuri come 300g de AN, só pela dieta ela recebe 210ml de água, então, preciso complementar somente cerca de 90ml.

Adiciono 2 colheres de sopa (30 ml) de água ou caldo de ossos a cada refeição da Zuri; como são 3 por dia, ela ingere cerca de 300 ml no total. Faço o mesmo com meus gatos. Mas sem encharcar a comida, pois excesso de líquido pode causar desconforto digestivo e refluxo. Se precisar complementar mais, deixe a refeição apenas bem úmida e ofereça o restante entre as refeições, saborizado com iogurte, caldo de ossos ou churu (para gatos).

Mude para AN!

Acredito que uma dieta preparada com ingredientes frescos, integrais e variados, é infinitamente mais saudável que uma dieta industrialmente processada, monótona e seca. Uma Alimentação Natural (AN) equilibrada beneficia o organismo como um todo, otimiza hidratação, além de ser rica em antioxidantes e fitonutrientes naturais altamente favoráveis aos rins. Podendo, mude! Ou considere o mixed feeding (associação de ração e dieta natural).

Proteína e fósforo

Não se recomenda restringir a proteína na dieta de cães nos estágios iniciais (I e II) da DRC, assim como nos gatos. Ainda assim, em cães, a partir do estágio II pode haver espaço para uma modulação. Se a dieta tiver teor proteico de 50% ou mais, pode-se reduzir para cerca de 40% e reavaliar em 30 dias.

Se o fósforo — parâmetro central na doença renal — estiver acima de 4,5 para os cães ou acima de 4,0 para os gatos, cabe um ajuste. Nesses casos, priorize cortes mais baixos nesse mineral, como coxa e sobrecoxa de frango, bucho bovino, lombo suíno e tilápia.

Peso

O excesso de peso, além de sobrecarregar as articulações, configura inflamação de baixo grau e favorece hipertensão, sendo que ambas essas questões prejudicam diretamente os rins. Se seu peludo tiver sobrepeso ou obesidade aproveite para instituir um plano de emagrecimento gradual.

Dentes

A doença periodontal em cães e gatos vai muito além da boca. A inflamação crônica e as bactérias gram-negativas caem na corrente sanguínea e afetam órgãos como os rins. Esse estímulo inflamatório contínuo favorece tremendamente o desenvolvimento da doença renal crônica. Por isso dizemos que saúde oral equivale a saúde sistêmica. A boquinha está podre? Não tem jeito, leve já para o veterinário para limpar. Depois mantenha com escovação diária e oferta de brinquedos, mastigáveis e ossos adequados.

Ômega-3 EPA e DHA

Os ácidos graxos ômega-3 EPA e DHA ajudam a reduzir a inflamação renal crônica, otimizam a hemodinâmica dos rins, favorecendo o fluxo sanguíneo e reduzindo a pressão intraglomerular. Com isso, tendem a diminuir a proteinúria (perda de proteína na urina) e a desacelerar a progressão da doença. Sugiro 60-70mg de EPA + DHA somados por kg de peso do pet, diariamente. No caso da minha cachorrinha Zuri, de 6kg, daria cerca de 420mg de EPA + DHA somados por dia. Comece com 1/4 da dose pretendida e aumente gradualmente.

Nutracêuticos

Nutracêuticos podem ter um papel interessante na preservação renal e na redução da fibrose progressiva desses órgãos. Gosto bastante do própolis verde, fonte de polifenóis com ação antioxidante — veja como administrar: https://cachorroverde.com.br/propolis2/ Os cogumelos medicinais Cordyceps e Ganoderma também apresentam efeitos renoprotetores, assim como a N-acetilcisteína, a glutationa e o dente-de-leão (Taraxacum officinale). Chitosan associado à nicotinamida ajuda a controlar os níveis de fósforo, quando elevados

Monitoramento

Uma vez detectado o quadro renal, repita os principais exames de monitoramento a cada 6 meses, ou mais frequentemente, conforme orientação da veterinária clínica-geral ou nefrologista. Gosto de pedir hemograma, uréia, creatinina, fósforo, aferição de pressão arterial, urinálise (urina tipo I), relação proteína:creatinina urinária e ultrassonografia abdominal. É importante estar atento à transição entre estágios para ir adequando a dieta, tratamentos e o manejo.

 

Sylvia Angélico
Médica Veterinária
pós-graduada em Nutrição Animal
CRMV-SP 29945

Comunicado Cachorro Verde

As informações divulgadas em nossas postagens possuem caráter exclusivamente educativo e não substituem as recomendações do médico-veterinário do seu cão ou gato. Por questões ético-profissionais, a Dra. Sylvia Angélico não pode responder certas dúvidas específicas sobre questões médicas do seu animal ou fazer recomendações para seu pet fora do âmbito de uma consulta personalizada. Protocolos de tratamento devem sempre ser elaborados e acompanhados pelo médico-veterinário de sua confiança.

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