Petiscos são aliados valiosos no dia a dia de cães e gatos. Com eles, reforçamos comportamentos desejáveis, expressamos carinho, facilitamos a administração de medicamentos e tornamos mais leves situações potencialmente estressantes, como consultas veterinárias e corte de unhas.

Também são ótimos recursos de enriquecimento ambiental, proporcionando relaxamento, distração e até contribuindo para a hidratação. Hoje, nunca houve tanta variedade disponível: pastinhas, biscoitos, patês, vegetais, carnes e vísceras desidratadas — de fontes comuns e também exóticas, como rã e jacaré — além de ossos, estruturas cartilaginosas fiversas e até larvas desidratadas. Bem diferente de alguns anos atrás, quando as opções se resumiam, em grande parte, a produtos de baixa qualidade, como biscoitos convencionais, “ossos” de couro bovino e tiras de bifinho de supermercado.
Mas, afinal, como escolher? Um ponto é essencial: não se deixe levar apenas pela imagem bonita da embalagem. A publicidade aposta em tendências para atrair o consumidor, mas sempre confira a composição no rótulo. Todo alimento que seu pet ingere importa — e muito. Na prática clínica, é comum ver petiscos inadequados comprometerem completamente dietas terapêuticas: o cão diabético que continua recebendo biscoitos, o gato em dieta hipoalergênica que consome a pastinha viciante de frango, o paciente cardiopata que ganha queijo, ou o animal com predisposição a cálculos urinários que recebe alimentos ricos em oxalato, como damasco.
Outro ponto que super merece atenção é a quantidade. O excesso de petiscos é, hoje, um dos principais fatores associados ao sobrepeso em cães e gatos — muitos acabam ingerindo mais calorias em petiscos do que nas próprias refeições. Como regra geral, eles não devem ultrapassar 10 a 15% do total diário de alimento. Aqui em casa, por exemplo, se a Zuri consome cerca de 280 g de alimentação natural por dia, os petiscos ficam entre 30 e 45g. Em situações que exigem uma oferta maior, como treinos, pode-se descontar da quantidade de alimento servido.
Importante lembrar também de não oferecer nada que contenha alimentos com potencial de intoxicar os pets, como cacau, cebola, uvas, macadâmia e carambola, ok? Leia mais sobre alimentos potencialmente tóxicos aqui.
Confira abaixo minhas preferências pessoais e contraindicações em relação a diferentes tipos de petiscos para cães e gatos.

Ingredientes que evito
Se bato o olho na composição e encontro açúcar ou derivados de milho, soja e trigo, já descarto o petisco. São ingredientes com potencial alergênico e pouco valor nutricional para cães e gatos — além de o trigo conter glúten, que pode impactar negativamente o microbioma intestinal. Também evito produtos com o símbolo de transgênico, já que, nesses casos, especialmente em milho, soja e trigo, pode haver maior presença de resíduos de herbicidas como o glifosato, associado a possíveis efeitos no sistema endócrino e na microbiota.
Aditivos que evito
O mesmo vale para aditivos como conservantes sintéticos (BHT e BHA), com potencial carcinogênico e possíveis efeitos endócrinos, e o umectante propilenoglicol — que, em gatos, pode causar anemia hemolítica. Também evito emulsificantes como carboximetilcelulose e polissorbato 80, associados a impactos negativos no intestino, e corantes sintéticos (tartrazina, amarelo crepúsculo, vermelho 40, dióxido de titânio), que em humanos podem causar hiperatividade e reações alérgicas. Prefiro petiscos conservados com ingredientes como extrato de alecrim e tocoferóis (vitamina E).
Cuidado com ossos
Os ossos mais seguros são os naturais crus, vendidos em açougue (mais nesse nosso artigo: cachorroverde.com.br/recreativos). Quando submetidos ao calor, perdem a porosidade, tornam-se mais rígidos e difíceis de digerir, aumentando o risco de obstruções ou perfurações. Evito totalmente os “ossos” de couro bovino, que costumam passar por processos químicos agressivos e são prejudiciais ao trato digestivo. E um ponto essencial: ossos, cascos, chifres ou qualquer item que possa ser roído e engolido devem ser sempre oferecidos sob supervisão.

Fígado bovino
Se o seu cão ou gato já recebe fígado bovino regularmente na dieta, não recomendo oferecê-lo também como petisco — seja desidratado, em biscoitos ou patês. Apesar de extremamente nutritivo, o fígado bovino é muito rico em cobre, mineral que, em excesso, pode sobrecarregar o fígado. Em comparação, fígado suíno e de frango contêm cerca de 15 a 19 vezes menos cobre, respectivamente. Além disso, é fácil exagerar na quantidade quando usamos fígado desidratado — afinal, a desidratação remove 70–75% da água, mas mantém praticamente intacta a concentração de nutrientes.
Biscoitos e biscoitos
Sempre leia a composição. Muitos rótulos de biscoitos que prometem uma composição mais limpa e funcional, incluem ingredientes de baixo valor nutricional e aditivos controversos. Prefiro biscoitos de aveia, farinha de arroz ou fécula de mandioca, ingredientes menos associados a alergias, a biscoitos de trigo, milho ou soja.
Pasta de amendoim
Muito popular na América do Norte, a pasta de amendoim é frequentemente usada para “esconder” comprimidos e drágeas. Porém, além de bastante calórica — cerca de 30 a 35 kcal em apenas 1 colher de chá —, pode apresentar significativa contaminação por micotoxinas, substâncias produzidas por fungos com impacto negativo sobre o fígado, a imunidade e até risco de causar câncer. Como alternativa, iogurte natural e cottage costumam ser opções mais interessantes e igualmente deliciosas para disfarçar medicamentos.

Mastigáveis
Mastigáveis — classificação informal dada a partes cartilaginosas desidratadas que os cães mastigam e ingerem, como orelha bovina e suína, focinhos, vergalhos, tendões etc – estão popularíssimos no Brasil e são muito interessantes para fortalecer mandíbulas, distrair e relaxar. Sempre tenho uma variedade deles em casa e ofereço à Zuri regularmente. Mas é importante informar que podem causar vômitos e/ou fezes amolecidas, com ou sem muco, em cães de digestão sensível.
Varie!
Para maior segurança, visando reduzir risco de acúmulo de elementos, sejam eles nutrientes, contaminantes ou aditivos, varie os petiscos. Não ofereça sempre os mesmos itens. Aqui, vario entre pedacinhos de frutas, mastigáveis diversos, brinquedo recheado com carnes desidratadas variadas, ovo e caldo de ossos congelado ou iogurte/kefir com amoras congelado.
Prepare em casa!
Entre 2007 e 2015, nos Estados Unidos, bifinhos de frango importados da China foram associados a vômitos, insuficiência renal e mortes em milhares de pets — possivelmente por contaminantes ou adulterações. Já em 2022 e 2023, no Brasil, petiscos contaminados com etilenoglicol também causaram mortes de cães e gatos. Para reduzir riscos e garantir uma composição mais limpa, vale preparar em casa opções como bifinhos, pastas para rechear brinquedos e biscoitos. No nosso site, livro e curso de Petiscos Funcionais, você encontra receitas seguras, nutritivas e deliciosas.

Sylvia Angélico
Médica Veterinária
pós-graduada em Nutrição Animal
CRMV-SP 29945
Comunicado Cachorro Verde
As informações divulgadas em nossas postagens possuem caráter exclusivamente educativo e não substituem as recomendações do médico-veterinário do seu cão ou gato. Por questões ético-profissionais, a Dra. Sylvia Angélico não pode responder certas dúvidas específicas sobre questões médicas do seu animal ou fazer recomendações para seu pet fora do âmbito de uma consulta personalizada. Protocolos de tratamento devem sempre ser elaborados e acompanhados pelo médico-veterinário de sua confiança.
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