Uma parte importante do meu trabalho é corrigir informações equivocadas ou desatualizadas que tutoras e tutores trazem sobre alimentação de cães e gatos. É natural que experiências pessoais acabem virando “verdades absolutas” na cabeça das pessoas. O que cansa um pouco é a quantidade de informação incorreta que continua circulando na internet, especialmente nas redes sociais — muitas vezes legitimada por milhares de “likes”.

Não ajuda o fato de entidades respeitadas, como a ASPCA (American Society for the Prevention of Cruelty to Animals) e o AKC (American Kennel Club), manterem listas extensas de alimentos “tóxicos” que, na realidade, já foram revisados como seguros ou, no máximo, merecedores de cautela em situações específicas.
Mas afinal, de onde vem a ideia de que frutas cítricas, castanhas, morango e avocado/abacate não devem ser oferecidos? De uma generalização excessiva, que coloca no mesmo balaio alimentos que:
– fazem mal apenas quando consumidos em excesso (como o alho),
– possuem partes tóxicas específicas (como a persina no caroço, casca e caule do abacate),
– ou podem causar problemas dependendo da condição individual, como o teor de gordura de castanhas e ovos para cães com pancreatite.
Muitos alimentos nutritivos — como ameixa, cereja e pêssego — acabaram rotulados como “proibidos” simplesmente pelo risco mecânico dos caroços, e não por toxicidade real. No fim das contas, entra o bom senso. Vai oferecer algo novo? Comece com pequena quantidade e faça disso a única novidade por 2 a 3 dias, para observar a resposta do animal. Essa é uma regra básica que passo às minhas clientes. Intolerâncias e hipersensibilidades alimentares podem ser extremamente individuais, mesmo a alimentos considerados seguros.
Remova caroços grandes que possam ser engolidos e causar obstrução (manga, pêssego, ameixa). Sementinhas, como as da abobrinha, tomate e morango, podem ficar. Retire também partes que nós não consumimos, como cascas duras. Evite sempre: chocolate, cebola, macadâmia e uvas/passas.
Seria muito mais interessante informar que certos alimentos são seguros com moderação ou contraindicados em quadros específicos, em vez de rotular tudo como “tóxico”. Mas nuance raramente performa bem no algoritmo.
Alimentos ricos em ácido oxálico, como espinafre, salsinha e damasco, por exemplo, são contraindicados para pets que formam cálculos urinários de oxalato de cálcio. Na dúvida, consulte uma veterinária nutróloga experiente.
A lista de mitos não para por aí — alguns são até curiosos. Confira abaixo.
📢 E bora ajudar a fazer informação de qualidade circular?

“AN não precisa suplementar”
Por melhor que seja a Alimentação Natural (AN) preparada em casa, ela precisa, sim, ser suplementada com vitaminas, minerais e ácidos graxos específicos. Isso pode ser feito com um suplemento vitamínico-mineral adequado à modalidade da dieta, com uma fórmula prescrita por uma veterinária nutróloga para manipulação, ou com orientação profissional sobre ingredientes naturais que preencham corretamente as lacunas nutricionais.
“Não pode combinar carnes diferentes”
Esse mito ainda circula — inclusive entre alguns veterinários —, mas não é verdade. Cães e gatos são carnívoros muito bem adaptados a digerir presas de espécies diferentes no mesmo dia. Exceto em dietas propositalmente restritivas, como as monoproteicas, para diagnóstico de sensibilidade alimentar, não há problema algum em a tigela conter, por exemplo, ovo, carne suína, fígado bovino e sardinha.
“Gatos precisam ter comida à vontade”
Gatos de vida livre podem caçar dezenas de pequenas presas por dia, mas esse cenário é completamente diferente do gato doméstico, confinado, sedentário e castrado, com acesso a dietas altamente calóricas. Por isso, é perfeitamente adequado que o gato adulto faça duas ou três refeições diárias.
E não: isso não causa lipidose hepática. Essa condição ocorre quando gatos obesos passam mais de 24 horas sem comer. Já a comida à vontade, sim, causa obesidade.

“Frutas cítricas são proibidas”
O pH do estômago do cão fica em torno de 1,5 a 2,5 durante a digestão, e o do gato pode chegar a 1,0 — extremamente ácido, ideal para destruir bactérias e dissolver ossos.
Compare com o pH de algumas frutas:
- Abacaxi: ~ 3,2 – 4,0
- Laranja: ~ 3,0 – 4,0
- Maçã: ~ 3,3 – 4,0
- Kiwi: ~ 3,1 – 3,9
Todas são menos ácidas que o estômago dos pets. Portanto, se o animal não tem gastrite ou sensibilidade gastrointestinal, com moderação não fazem mal algum.
“A comida não pode ter sal”
Errado. O organismo precisa de sódio e cloreto, nutrientes essenciais presentes no sal. Eles participam do equilíbrio hídrico, da osmolaridade plasmática e da função neuromuscular.
O cloreto ainda é indispensável para a produção de ácido clorídrico gástrico, fundamental para a digestão proteica e a defesa contra patógenos.
Para pets sem cardiopatia congestiva, sugiro adicionar 1 a 1,5 g de sal marinho para cada 1 kg de alimento pronto.
“Caldo de ossos suplementa a dieta”
O caldo de ossos é, sem dúvida, um alimento valioso — rico em glicina, condroitina e colágeno, com benefícios para articulações, sistema nervoso e trato digestivo.
Mas ele é apenas um complemento. Não fornece nutrientes que costumam faltar na dieta natural caseira, como iodo, manganês, vitaminas D e E, entre outros.

“Alho é sempre tóxico”
O alho é parente da cebola, que realmente é contraindicada. Porém, ele contém cerca de 10 vezes menos tiossulfato, o composto com potencial tóxico.
Além disso, o alho apresenta propriedades terapêuticas: estimula a imunidade, diversifica o microbioma intestinal e atua como leve repelente natural contra pulgas, carrapatos, moscas e vermes.
Entidades como NRC e AAFCO o consideram seguro em doses baixas.
Mais informações: https://cachorroverde.com.br/alho/
“Ossos perfuram as tripas”
Ossos de presas pequenas são a principal fonte natural de cálcio e fósforo dos carnívoros. Para que sejam seguros, algumas regras são essenciais:
- Ossos devem ser oferecidos crus — o cozimento altera o colágeno, tornando-os mais rígidos e difíceis de digerir.
- Sempre supervisione o consumo, pois até brinquedos oferecem risco de engasgo.
- Não ofereça ossos a pets com problemas digestivos ou em uso de antiácidos.
“Peixe faz o pelo cair”
Esse mito é curioso. Peixe é fonte de proteína completa, altamente digestível e biodisponível. Além disso, espécies como sardinha, cavala, manjuba, arenque e anchova são ricas em ômega-3 (EPA e DHA).
Proteína de qualidade e ômegas são fundamentais para a saúde da pele e da pelagem — exatamente o oposto do mito.

“Só a ração é uma opção adequada de dieta”
Felizmente, esse mito vem caindo. Comparada a uma dieta natural equilibrada e suplementada, a maioria das rações perde em qualidade de ingredientes, digestibilidade, proporção proteína x carboidratos, presença de contaminantes (AGEs, micotoxinas) e teor de umidade.
Hoje, empresas de AN nos EUA já cresceram o suficiente para financiar estudos que vêm validando esses benefícios.
“Abacate / avocado é proibido para cães”
Os alertas sobre o avocado como tóxico vêm de um único estudo antigo e mal interpretado. Pesquisas posteriores mostraram que a polpa é segura.
O risco está na casca, caroço e folhas, que concentram a toxina persina. A polpa é rica em fibras, vitaminas, minerais e gorduras saudáveis, com benefícios cardíacos, digestivos e metabólicos.
Leia mais: https://cachorroverde.com.br/avocado/
“Com AN o pet não volta a aceitar ração”
Não é verdade. A imensa maioria dos cães e gatos aceita ração novamente se necessário, graças à textura crocante e aos flavorizantes.
Aqui em casa, inclusive, tenho um gato adepto a mixed feeding por constipação felina severa: come felizão metade AN crua sem ossos e metade ração terapêutica.

“Carne crua deixa o pet agressivo”
Esse é mais que um mito — é quase uma lenda urbana. Comer carne crua não muda o comportamento do pet, assim como comer kibe cru, sashimi, ceviche ou carpaccio não muda o nosso. Ufa, né?
“Cocô de comida é um horror”
Cocô de pizza, lasanha ou resto da nossa geladeira pode até ser. Mas cocô de Alimentação Natural costuma ser um dos pontos mais elogiados da dieta.
Isso acontece porque a AN tem maior digestibilidade, gerando menos resíduo — e, muitas vezes, fezes com odor mais discreto.
“Carne de porco é gordurosa e perigosa”
Essa ideia vem de décadas atrás, quando os porcos eram criados sem higiene, os cortes eram muito gordurosos e era comum o consumo da carne suína mal cozida causar parasitoses sérias. Hoje, a carne suína brasileira é magra, segura e nutritiva, excelente fonte de selênio, potássio e ômega-6.
Além disso, é acessível, fácil de encontrar e geralmente muito bem aceita pelos pets.

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Sylvia Angélico
Médica Veterinária
pós-graduada em Nutrição Animal
CRMV-SP 29945
Comunicado Cachorro Verde
As informações divulgadas em nossas postagens possuem caráter exclusivamente educativo e não substituem as recomendações do médico-veterinário do seu cão ou gato. Por questões ético-profissionais, a Dra. Sylvia Angélico não pode responder certas dúvidas específicas sobre questões médicas do seu animal ou fazer recomendações para seu pet fora do âmbito de uma consulta personalizada. Protocolos de tratamento devem sempre ser elaborados e acompanhados pelo médico-veterinário de sua confiança.
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