Nesse último final de semana, recebi em casa para uma prosa com bolo e café a primeira cliente que atendi e que se tornou uma amiga querida. Entre muitos assuntos, refletimos sobre como os tutores adeptos da Alimentação Natural para cães e gatos hoje são sortudos se compararmos com a realidade de 15, 20 anos atrás.

Naquela época, arregaçar as mangas e preparar a dieta em casa era o único caminho, já que não existiam opções comerciais de AN. Era também comum produzirmos o suplemento da dieta, misturando farinha de cascas de ovos, levedo de cerveja, sementes e algas trituradas.

Hoje, o cenário é outro. O mercado brasileiro oferece uma variedade impressionante de dietas naturais para cães e gatos, em diferentes formatos e apresentações: enlatadas, autoclavadas (que dispensam refrigeração), congeladas, liofilizadas, desidratadas, cozidas e cruas, com ou sem ossos.

Muitos tutores — com pouco tempo, vários pets, animais de grande porte ou pouco espaço no freezer — optam pelas versões comerciais da AN. Elas custam bem mais do que preparar em casa, é verdade, mas oferecem praticidade: dispensam a necessidade de se informar para montar a dieta, o planejamento para comprar e preparar os alimentos, o espaço no freezer para armazenamento e a suplementação adequada.

Além disso, dietas comerciais costumam ter credibilidade. Afinal, são formuladas por médicos-veterinários ou zootecnistas, passam por processos regulatórios, são vistoriadas por órgãos competentes e têm um responsável técnico.

Mas, como tudo na vida, existem dietas e dietas. E nem sempre o cumprimento das exigências legais garante que a formulação seja realmente equilibrada ou indicada para uso contínuo. Por isso, neste post compartilho alguns pontos — relativamente acessíveis — que costumo observar nas informações fornecidas pelas empresas.

É claro que uma análise mais aprofundada exige conhecimento técnico, e isso foge ao escopo desta postagem. Vale lembrar também que os critérios que sigo refletem minhas experiências pessoais, preferências e visão. E, por fim, outros fatores pesam nessa seleção: você consegue bancar essa dieta? Seu pet gosta dela? O cocô está bom? A pelagem está bonita?

Teor de proteína, gordura e carboidrato

Toda dieta contém proteína, gordura e carboidrato em proporções variáveis. Para cães saudáveis, costumo preferir dietas ricas ou moderadas em proteína, moderadas em gordura e baixas a moderadas em carboidrato. Já para gatos saudáveis, o ideal é: proteína alta, gordura moderada e carboidrato baixo. Essas informações devem estar no rótulo da dieta e no site da empresa fabricante.

Como interpretar esses números

Você conferiu os teores de proteína e gordura da dieta e se assustou com valores como 8% ou 12%? Calma! Esses números são expressos “as fed“, ou seja, com a umidade incluída. Como dietas naturais são ricas em água, esses teores parecem baixos — mas não refletem o conteúdo real dos nutrientes.

No rótulo, você encontrará o teor de umidade da dieta.
Vamos supor que seja 71%.
Basta fazer: 100 – 71 = 29%.
Esse valor representa a matéria seca (MS) da dieta — a parte sem água.
É com base nessa fração que avaliamos o conteúdo real de proteína, gordura e carboidratos.

Imagine que a dieta informa:

  • 11% de proteína
  • 9% de gordura (extrato etéreo)
  • 1,5% de fibras
  • 2% de minerais
  • Umidade: 71% = matéria seca: 29%

Para descobrir o teor na MS (matéria seca), faça:
(Valor informado no rótulo ÷ MS) × 100

Exemplo:

  • Proteína → (11 ÷ 29) × 100 = 37,9% na MS
  • Gordura → (9 ÷ 29) × 100 = 31% na MS
  • Fibras → (1,5 ÷ 29) × 100 = 5,2% na MS
  • Minerais → (2 ÷ 29) × 100 = 6,9% na MS

Estimando os carboidratos

O teor de carboidrato costuma não ser informado. Mas dá para estimar por diferença:
100 – (proteína + gordura + fibras + minerais) = valor de carboidatos
100 – (37,9 + 31 + 5,2 + 6,9) = 19%
Resultado: a dieta contém, na matéria seca, 37,9% de proteína, 31% de gordura e 19% de carboidrato

Formulação x Composição

Compare ambos e avalie se há incongruências. Por exemplo: a formulação indica que a dieta tem 2% de fibras, mas a composição cita somente sardinha, coração de boi, fígado bovino e chuchu – nada de ingredientes fibrosos, como abóbora, inhame, batata-doce, vagem, ervilha, chia, linhaça, psyllium, celulose etc. Ou informa um teor baixo de gordura, mas a composição inclui somente cortes gordurosos de carne, como língua bovina e pernil suíno.

Ácidos graxos ômega-3

A maioria das empresas brasileiras segue os padrões da entidade européia FEDIAF, que não exige ômega-3 EPA e DHA para cães e gatos adultos. Mas para filhotes, gestantes e lactantes, a adição desses ômegas é fundamental. Dietas voltadas a esses animais devem conter fontes como óleo de peixe, sardinha, anchova, cavala, manjuba etc.

Ingredientes

Pessoalmente, evito dietas com leguminosas (grão-de-bico, lentilha, feijão), que são de difícil digestão para carnívoros.
Dispenso derivados de milho, soja e trigo — geralmente transgênicos e potencialmente alergênicos.
Prefiro gorduras de aves e suínos, e óleos como linhaça, girassol ou chia, em vez de canola ou soja.
E nunca escolho dietas sem vísceras — elas são fontes valiosas de nutrientes.

Matéria vegetal

Para um microbioma intestinal diverso (base da saúde imunológica e metabólica), é essencial incluir vegetais e fibras— até para os gatos. Fibras solúveis de verduras, sementes e frutas alimentam as boas bactérias do intestino.Dietas naturais devem conter: pelo menos 0,7% de fibras para gatos. E no mínimo 1% para cães.

Vitaminas e minerais

Não se esqueça de sempre verificar se a dieta é adequadamente suplementada para a espécie, idade e grau de atividade física do seu peludo.
As que suplementam incluem os minerais e as vitaminas na lista de ingredientes da composição, ou, o que é ainda melhor: informam o enriquecimento por Kg do produto em uma lista ou tabela separada, com a dose de cada micronutriente adicionada à fórmula.
Na dúvida, pergunte ao fabricante.

Relação cálcio:fósforo

Verifique se a relação entre cálcio e fósforo está adequada.
Recomendado:
Cães: 1:1 até 2:1
Gatos: 1:1 até 1,5:1

Por exemplo: se o rótulo informa que a dieta fornece 2.000mg de cálcio e 2.000mg de fósforo por kg isso representa uma proporção de 1:1.
Relações invertidas (mais fósforo que cálcio) podem causar problemas ósseos irreversíveis em filhotes, e distúrbios renais, urinários e metabólicos em adultos.

Extras benéficos à saúde

Me agrada muito ver na composição ingredientes funcionais que, embora não sejam fundamentais, agregam valor terapêutico.
Ervas como manjericão, salsinha, tomilho, hortelã, sementes como a de abóbora e de girassol, cogumelos, frutas vermelhas, cúrcuma, gengibre, bardana e outros, fornecem antioxidantes e fitonutrientes valiosos que neutralizam radicais livres, desaceleram o envelhecimento e ajudam a modular processos inflamatórios.

Transparência e informação

Fabricantes de AN, por favor, informem no site:

  • Indicação de uso (filhotes e adultos sedentários e ativos)
  • Composição completa
  • Enriquecimento e níveis de garantia, tanto: “as fed” (com umidade), quanto na matéria seca (MS) e, se possível, a distribuição calórica dos macros. Isso demonstra transparência, conhecimento técnico e respeito pelo consumidor. É muito frustrante buscar essas informações a pedido da cliente e não encontrar.

Sylvia Angélico
Médica Veterinária
pós-graduada em Nutrição Animal
CRMV-SP 29945

Comunicado Cachorro Verde

As informações divulgadas em nossas postagens possuem caráter exclusivamente educativo e não substituem as recomendações do médico-veterinário do seu cão ou gato. Por questões ético-profissionais, a Dra. Sylvia Angélico não pode responder certas dúvidas específicas sobre questões médicas do seu animal ou fazer recomendações para seu pet fora do âmbito de uma consulta personalizada. Protocolos de tratamento devem sempre ser elaborados e acompanhados pelo médico-veterinário de sua confiança.

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