Dezoito anos. Taí uma marca inesquecível.

Foi em 2008 que a Vanessa e eu criamos o então blog Cachorro Verde, para compartilhar nossas aventuras — e desventuras — no preparo de refeições de BARF (dieta crua com ossos) para a nossa turma de três cães e dois gatos.

Eu era estudante do terceiro ano de Medicina Veterinária; a Vanessa, fotógrafa e webdesigner. Naquela época, o termo “AN” (Alimentação Natural) sequer existia, e eu conhecia apenas uma empresa de dieta crua comercial — que logo fechou. O número de veterinários brasileiros que recomendavam dieta caseira não enchia uma mão. Ainda assim, o blog despertou tanto interesse que rapidamente precisou se transformar em um site, com conteúdo organizado e indexado.

A visibilidade trouxe não só curiosidade, mas também resistência. Mais de uma vez, fomos alvo de represálias e ameaças por parte da indústria de rações.

Nesse período, fui convidada pelo veterinário australiano Tom Lonsdale — considerado o “pai” da dieta Raw Meaty Bones, precursora da Prey Model Raw — para traduzir seu livro para o português.

Cursei pós-graduação em nutrição de cães e gatos, me formei e, em 2011, comecei a atender consultas de nutrição clínica. A demanda cresceu tanto que, em 2013, passamos a oferecer cursos presenciais: para tutores, ensinando o preparo de dietas caseiras equilibradas para pets saudáveis; e para veterinários, abordando dietas naturais terapêuticas, voltadas ao suporte em diferentes doenças. Foram sete anos rodando o Brasil com esses cursos, além da Oficina de Petiscos Funcionais, realizada exclusivamente em São Paulo.

Ao longo desse caminho, vimos nascer empresas de Alimentação Natural que seguem ativas até hoje, o desenvolvimento de suplementos específicos para balancear dietas caseiras — inclusive pude atuar como consultora na criação de dois deles, da linha “Food Dog – dietas cruas”, com e sem ossos —, o surgimento de softwares para formulação de dietas mais precisas e o lançamento de pós-graduações que passaram a dar espaço tanto às dietas caseiras quanto às industrializadas. Desde 2021, sou professora de dietas cruas em uma dessas formações. Mais do que tudo, vimos o mercado crescer — e, com ele, a curiosidade e a abertura dos veterinários para as dietas naturais.

Em 2015, fui convidada para um debate em uma universidade, que supostamente discutiria um artigo sobre AN, mas acabou se revelando uma armadilha televisionada. Fui pressionada e criticada por dois professores de nutrição. No mesmo ano, realizamos o Holistipet, um congresso online – formato inovador para a época – sobre cuidados integrativos para pets, com mais de uma dezena de palestrantes referência em suas áreas.

Em 2017, palestramos no congresso FHA, no Rio de Janeiro, onde tivemos o privilégio de conhecer Karen Becker e Rodney Habib, profissionais que admiro profundamente — e mais tarde fui entrevistada pela Karen. Em 2022, fomos convidadas pela editora Sextante para realizar a revisão científica da edição brasileira do best-seller deles, O Cão Eterno.

Entre 2017 e 2019, enfrentei um processo ético-administrativo por oferecer consultoria nutricional à distância — que acabei perdendo. Ainda assim, vivi para ver esse tipo de atendimento ser regulamentado no período pós-pandemia.

No ano passado, lançamos nosso primeiro livro de forma 100% independente, reunindo mais de uma centena de dietas naturais equilibradas — cruas (com e sem ossos) e cozidas — para cães e gatos saudáveis de todas as idades.

Dezoito anos. De aprendizado, de erros e de experiência. Das amizades indeléveis que a veterinária me trouxe. Da gratidão aos clientes — pela paciência, pela confiança, pela persistência. Algumas se tornaram grandes amigas. Dezoito anos de transformação — no mercado, na mentalidade dos veterinários e também em nós.

E, ao longo desse tempo, a alegria de acompanhar tantas vidas… e também o pesar pelas despedidas de tantos peludos.

A seguir deixo alguns conselhos para a nova geração de nutrólogos — baseados nessas quase duas décadas de vivência.

Aprimore a escuta

Se nossas orientações terapêuticas não inspiram confiança, a adesão do cliente ao tratamento tende a ser menor. Mas, tão importante quanto saber comunicar, é saber ouvir. Desenvolver uma escuta acolhedora e atenta faz toda a diferença. Procuro sempre criar um ambiente em que o cliente se sinta à vontade para compartilhar dúvidas e informações, sem receio de julgamentos. Essa abertura amplia minha compreensão sobre o paciente e suas circunstâncias — o que aumenta as chances de eu realmente conseguir ajudá-lo.

Entenda um pouco de tudo

Um dos aspectos que mais me fascinam na nutrição clínica é a diversidade de casos que atendo ao longo da semana: obesidade, doença renal crônica, cardiopatias, alergias alimentares, enteropatias, além de epilépticos, hepatopatas, diabéticos, pacientes oncológicos e outros. Diante disso, é essencial dominar o básico dos sistemas — patofisiologia, diagnóstico, sinais clínicos, tratamentos e comportamento das doenças. Acompanhar eventos veterinários generalistas, com atualizações de diferentes áreas, é uma estratégia que me ajuda bastante.

Acompanhamento é ouro

Acompanhar dá mais trabalho do que atender — e é justamente aí que muitos colegas da nutrição clínica se enroscam. É possível atender 5 ou 6 pacientes por dia, ou até mais, mas será viável oferecer um acompanhamento adequado a 140 pacientes diferentes por mês? É no acompanhamento que a conduta terapêutica se refina, a partir dos relatos do cliente sobre a resposta do animal à dieta, ao manejo e às formulações propostas. Cabe a cada profissional definir como conduzir esse processo — seja por WhatsApp ou por e-mail (eu sou do time e-mail).

Aprender, desaprender e reaprender

A nutrição — humana ou pet — é feita de uma diversidade de visões, caminhos e filosofias, várias das quais são válidas. O que raramente faz sentido são soluções mágicas e posicionamentos dogmáticos. Manter a mente aberta permite rever posicionamentos ao longo do tempo. Quem me acompanha há mais de 10 anos sabe que já fui bem contrária à dieta mista (a associação de ração e Alimentação Natural), que hoje vejo como uma boa opção para quem não pode aderir 100% à AN.

Encontre a cliente no meio do caminho

No mesmo dia, atendo responsáveis por pets com perfis muito diversos — desde aqueles que são verdadeiros “nerds” de Alimentação Natural, até quem não tem qualquer familiaridade com o tema. E tá tudo certo. Entendo que nosso papel, como orientadores da alimentação, não é impor a opção que consideramos ideal, mas apresentá-la e estar disponíveis para ajustá-la à realidade de cada cliente e paciente.

Uso ético das redes sociais

Ter presença digital é importante hoje em dia. Mas é inegável que as redes sociais se tornaram um reduto também para conteúdos viesados e alarmistas. Sem falar no quanto hostilidades são toleradas e até em certa medida incentivadas pelo algoritmo. Crie conteúdos com responsabilidade e interaja de forma respeitosa. Todo mundo sai ganhando.

O combinado não ofende

Desde o primeiro contato, deixe claro como funciona o seu atendimento, de preferência antes até do agendamento da consulta. Explique se há retorno, se existe acompanhamento e por quanto tempo ele ocorre, em quais horários você está disponível, se atende emergências e qual o prazo para entrega de materiais. Alinhar expectativas desde o início evita desgastes desnecessários.

Embasamento, bom senso e experiência

Por muito tempo, os defensores de Alimentação Natural precisaram sustentar suas condutas nos resultados observados e em conhecimentos de fisiologia e nutrição.
Agora, com o crescimento do segmento de dietas naturais comerciais, começa a surgir investimento em pesquisa “do lado de cá”, e estudos vêm sendo publicados, confirmando o que a prática já indicava.
Mas ter mais referências não elimina a necessidade de senso crítico. É fundamental saber filtrar informações e equilibrar decisões entre evidência científica, aplicabilidade prática e, sim, também a intuição clínica que vem com a experiência.

Vivencie o que você recomenda

Tenha “pele em jogo”, como sempre diz meu amigo e colega Artur Vasconcelos. É vivendo aquilo que você recomenda que se compreende, de fato, o que o tutor enfrenta no dia a dia, e como o paciente responde à dieta e ao manejo.
Experimentar permite identificar o que funciona, onde estão os gargalos e como ajustá-los. Em poucos minutos assistindo a uma aula ou palestra, consigo perceber se há vivência por trás do discurso.

Sylvia Angélico
Médica Veterinária
pós-graduada em Nutrição Animal
CRMV-SP 29945

Comunicado Cachorro Verde

As informações divulgadas em nossas postagens possuem caráter exclusivamente educativo e não substituem as recomendações do médico-veterinário do seu cão ou gato. Por questões ético-profissionais, a Dra. Sylvia Angélico não pode responder certas dúvidas específicas sobre questões médicas do seu animal ou fazer recomendações para seu pet fora do âmbito de uma consulta personalizada. Protocolos de tratamento devem sempre ser elaborados e acompanhados pelo médico-veterinário de sua confiança.

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