Quem oferece Alimentação Natural (AN) ao seu pet já conhece de perto os benefícios que a dieta pode trazer à saúde do peludo. Entre eles, pelagem mais macia, brilhante e com menos queda; mais disposição para brincar e passear; empolgação diante da refeição; imunidade mais vigilante contra infecções e parasitas; xixis mais volumosos (mesmo com menor ingestão de água) e cocôs menores, com odor mais leve. Os motivos por trás dessas melhorias não deveriam surpreender. A diferença está entre consumir exclusivamente um alimento ultraprocessado, de composição fixa, preparado com subprodutos submetidos a sucessivas etapas de processamento — o que provoca inclusive a formação de toxinas como os AGEs — e consumir uma dieta variada e minimamente processada, naturalmente rica em água e com sua multiplicidade de nutrientes preservados.

Na última década, acompanhando o crescimento vertiginoso do mercado de dietas naturais e o interesse crescente dos tutores por uma alimentação mais saudável e menos processada, o meio acadêmico tem voltado seu olhar para a AN, tanto crua quanto cozida. Ainda faltam mais pesquisas, naturalmente — conduzir um estudo robusto pode custar centenas de milhares de dólares, ultrapassando facilmente um milhão quando envolve, por exemplo, acompanhar por anos dois grupos de animais (um recebendo AN e outro, ração) em ambiente controlado.
Aderi à AN em 2008, pratiquei-a com 7 cães e 4 gatos e, desde 2011, acompanhei cerca de 10 mil pacientes. Para mim, não há dúvidas: oferecer uma dieta equilibrada e suplementada, ajuda enormemente a prevenir o surgimento precoce de doenças crônicas e pode prolongar, com qualidade, a vida do pet. Isso é algo que vejo todos os dias nos meus atendimentos.
Para quem está cogitando migrar para a AN, seja como dieta exclusiva ou em conjunto com a ração (mixed feeding), mas ainda tem dúvidas, deixo neste post alguns artigos científicos com resultados favoráveis à AN. É leitura importante para quem ainda acha — ou gosta de afirmar por aí — que não existem evidências científicas dos benefícios da dieta baseada em alimentos in natura à saúde dos pets. ?

Menor risco de otite
Um estudo de 2023 com 3.064 cães investigou a relação entre fatores de vida precoce e o risco de desenvolver otite após 1 ano de idade. Foram comparadas duas dietas: natural crua à base de carne e ração seca convencional. A dieta natural, tanto na gestação da mãe quanto entre 2 e 6 meses de idade dos filhotes, reduziu significativamente o risco de otite, enquanto a ração aumentou o risco. Filhotes que recebiam mais de 25% da dieta como AN crua apresentaram menor incidência de otite, enquanto a oferta de mais de 75% de ração aumentou o risco.
Sci Rep. 2023;13:1830. doi:10.1038/s41598-023-27866-z.
Resposta imunológica mais equilibrada
Cientistas avaliaram o impacto de uma dieta natural cozida em cães saudáveis, comparada à ração seca. Foram 16 cães, que receberam cada dieta por 67 dias, em esquema cruzado. Os leucócitos (células de defesa) dos cães que comeram comida fresca mostraram menor relação TNF-α/IL-10 — ou seja, um perfil inflamatório mais equilibrado — e maior produção de IL-8, citocina ligada à ativação da resposta imunológica. Conclusão: uma dieta com comida fresca pode modular aspectos do sistema imunológico em cães saudáveis.
Front Vet Sci. 2022 Aug 22;9:898056. doi:10.3389/fvets.2022.898056.
Menor risco de doenças intestinais
Foi investigada a relação entre a alimentação de filhotes de cães e a ocorrência de enteropatia crônica na vida adulta. Cães alimentados com carnes, ossos e cartilagens crus na fase de filhote (2-6 meses) e adolescência (6-18 meses) tiveram menor risco de desenvolver enteropatia quando adultos. O consumo de frutas como amoras na fase de filhote também se mostrou protetor. Por outro lado, cães que receberam ração seca e “ossos” de couro bovino apresentaram maior risco de desenvolver enteropatia crônica no futuro.
Front Vet Sci. 2023;10:1186131. doi:10.3389/fvets.2023.1186131.

Menor presença de glicotoxinas
AGEs (produtos finais de glicação avançada, ou glicotoxinas) se formam quando açúcares reagem com proteínas ou gorduras, especialmente sob altas temperaturas. No processamento de rações secas, esse efeito é acentuado pelas sucessivas etapas de aquecimento. Em excesso, os AGEs têm ação inflamatória e prejudicam a saúde. Um estudo com cães e gatos investigou a relação entre a ingestão dos AGEs na dieta natural crua e na ração seca e a excreção urinária desses compostos, indicando sua absorção intestinal. O grupo de animais alimentado com ração apresentou níveis de AGEs urinários 2 a 3x maiores do que o que recebeu dieta crua.
J Anim Physiol Anim Nutr (Berl). 2021 Jan;105(1):149-156. doi: 10.1111/jpn.13347. Epub 2020 Apr 11.
Possibilidade de customizar
Um estudo italiano de 2024 acompanhou, por 14 meses, 167 cães — saudáveis e também com problemas de saúde — alimentados com dietas caseiras cozidas formuladas sob medida para cada caso. Setenta por cento dos saudáveis apresentaram melhora na pelagem e 47% apresentaram redução das fezes. Entre os que precisavam emagrecer, 67% atingiram a meta de peso. Os resultados mais impressionantes vieram dos cães com doenças: melhora dos sintomas em 95% dos casos de enteropatia crônica, 83% nos quadros dermatológicos e 100% nos que tinham as duas condições.
Vet Sci. 2024 Sep 17;11(9):438. doi: 10.3390/vetsci11090438
Melhor escore clínico geral
Um estudo comparou inúmeros marcadores de saúde de cães alimentados com dieta crua com cães que recebiam ração. Os cães da dieta natural apresentaram melhor escore clínico geral, com destaque para pelagem mais saudável, além de níveis mais baixos de fosfatase alcalina — sugestivo de menor inflamação ou estresse no organismo, além de melhor taxa glicêmica. Os autores sugerem que o grau de processamento e o teor de nutrientes da dieta podem influenciar de forma relevante a saúde dos cães.
J Anim Sci. 2021 May 3;99(6):skab133. doi: 10.1093/jas/skab133

Menor risco de desenvolver atopia
Um estudo da Universidade Sueca de Ciências Agrícolas acompanhou cadelas lactantes e seus filhotes de raças predispostas à atopia — Boxer, Bull Terrier e West Highland White Terrier — até os 6 meses de vida. Observou-se que as cadelas que consumiam carne, ovos e/ou lácteos, além da ração seca, tinham filhotes com menor risco de desenvolver dermatite atópica. A exposição precoce a alimentos com carga microbiana e efeito prebiótico parece estimular o sistema imunológico dos filhotes, conferindo proteção contra o desenvolvimento da atopia.
Sallander et al., 2009, The Open Dermatology Journal, 3:73-80.
Maior digestibilidade
Um grupo de 10 beagles saudáveis recebeu cinco dietas diferentes: ração seca, dieta natural cozida, dieta crua congelada e dieta crua liofilizada. Cada dieta foi testada por 35 dias, com análises de sangue e fezes realizadas ao final. A ração seca teve o pior desempenho em digestibilidade de proteína, digestibilidade de gordura e qualidade das fezes. As dietas cruas ficaram em primeiro lugar em todos esses quesitos. Esse resultado — digestibilidade superior das dietas naturais — parece ser unanimidade em estudos que comparam alimentos naturais e ração seca.
Geary et al., 2024, Translational Animal Science, 8: txae163, doi:10.1093/tas/txae163
Menores taxas de triglicérides e colesterol
O estudo brasileiro “Alimentos convencionais versus naturais para cães adultos”, realizado pelas Doutoras Flávia Saad e Janine França em 2009, avaliou a influência de dietas naturais cruas e cozidas e ração seca e úmida sobre parâmetros sanguíneos de cães adultos. Os resultados mostraram que cães alimentados com ração seca apresentaram níveis mais elevados de triglicerídeos e colesterol total em comparação com aqueles que receberam dietas naturais. Esses achados sugerem que dietas naturais podem ter um efeito mais equilibrado sobre os lipídios sanguíneos dos cães.
http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=171082

Microbioma intestinal mais diverso
Estudiosos investigaram como a dieta influencia a composição do microbioma intestinal dos cães. Foram analisados cães alimentados com dieta natural crua e ração seca. Os resultados mostraram que a dieta natural promoveu maior diversidade alfa e beta da microbiota fecal em comparação com a ração comercial. Quanto mais variada a “flora”intestinal, melhor o organismo consegue se proteger contra doenças e manter funções digestivas e imunológicas eficientes.
Gut Pathog. 2017 Nov 21;9:68. doi: 10.1186/s13099-017-0218-5. eCollection 2017
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Sylvia Angélico
Médica Veterinária
pós-graduada em Nutrição Animal
CRMV-SP 29945
Comunicado Cachorro Verde
As informações divulgadas em nossas postagens possuem caráter exclusivamente educativo e não substituem as recomendações do médico-veterinário do seu cão ou gato. Por questões ético-profissionais, a Dra. Sylvia Angélico não pode responder certas dúvidas específicas sobre questões médicas do seu animal ou fazer recomendações para seu pet fora do âmbito de uma consulta personalizada. Protocolos de tratamento devem sempre ser elaborados e acompanhados pelo médico-veterinário de sua confiança.
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